“Se estragam o sono, estragam o corpo”

Teresa Paiva deu uma longa entrevista ao “Diário de Notícias” no sábado 28 de Janeiro, na rubrica “Almoço com…” onde falou sobre os problemas do sono com a jornalista Graça Henriques.

As tecnologias e as redes sociais são hoje as grandes responsáveis por nos tirarem o sono. A noção de que nunca estamos sossegados, de que estamos sempre a fazer qualquer coisa. O cérebro tem redes neuronais que funcionam em reforço, e durante o sono temos redes neuronais que vão funcionar por sua conta e risco e vão facilitar a aquisição de aprendizagem sem que a gente interfira nisso. O estar sempre a fazer qualquer coisa impede que estas redes atuem bem durante o sono, o que afeta a memória, o humor. Com a atual concentração nos telemóveis e nos media, costumo dizer, por brincadeira, que qualquer dia há um assalto e estão todos com o telemóvel e ninguém vê o assalto”.

“Outro grande problema das redes sociais é as pessoas acreditarem que uma relação à distância é igual a uma relação pessoal. As pessoas ficam coartadas emocionalmente, tenho visto doentes assim… Tenho doentes com 14 horas por dia de internet e outros de televisão” diz.

Teresa Paiva defende por isso o respeito pela regra dos 8×3: oito horas de sono, oito horas de trabalho, oito horas de diversão. Quando esta regra aritmética não é cumprida a pessoa “perde o sono, a diversão, a vida familiar, o contacto com os filhos, a mãe chega a casa cansada e faz o que eles querem.” 

“Há uma curva gaussiana, a maior parte precisa de dormir sete ou oito horas e podem ir até nove. Abaixo de cinco horas é seríssimo e abaixo de seis é sério, a menos que seja um short sleeper. Mas há muitas pessoas que acham que o são e não são, têm privação de sono e aguentam… até um dia” refere a neurologista especialista  do sono.

“Ao fim de 20 anos de privação do sono, é praticamente garantido que surjam consequências, depressões, burnout, doenças cancerígenas e doenças  cardiovasculares” acrescenta.

“Todo o nosso organismo funciona para garantir a nossa sobrevivência, dormimos para garantir a nossa sobrevivência. Se não acordássemos a meio da noite já tínhamos sido comidos por um bicho há milhões de anos”, adianta com ironia.

 

“As crianças estão a trabalhar mais de 40 horas por semana”

“A OCDE diz que Portugal é o quarto país do mundo a trabalhar mais horas e é dos menos produtivos. O excesso de horas de trabalho não aumenta a produtividade, porque precisamos do tempo que estamos ocupados com coisa nenhuma para melhorar a capacidade, a diversidade, as nossas emoções. Os países do Norte da Europa saem todos às cinco da tarde e são ricos” diz Teresa Paiva.

Os horários escolares também deviam ser mais desfasados, não estar tudo programado para começar à mesma hora. “Os horários matutinos das crianças são provocados pelos horários dos pais e estão interligados. Há crianças que abrem a escola e estão lá das oito da manhã até às seis ou sete da tarde. Um horror. As crianças estão a trabalhar mais de 40 horas por semana, que é o horário de um adulto.”

A neurologista e especialista em medicina do sono falou ainda ao “Diário de Notícias” sobre as crianças que dormem na cama dos pais. “É uma habituação imensa. Há uma situação muito paradigmática: os pais separam-se, a mãe fica com a criança e passa a dormir com ela. Outra coisa são os pais que põem os filhos na cama quando eles choram. Há muita gente a dormir na cama dos pais na primeira década de vida, mais do que pensamos…”

Pode ler a entrevista na íntegra no seguinte endereço electrónico:

http://www.dn.pt/sociedade/interior/os-portugueses-sabem-dar-a-volta-arranjamos-sempre-uma-geringonca-5632215.html

 

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