“Privação de sono crónica aumenta em 12% risco de todas as causas de mortalidade”

Dulce Neutel, médica neurologista e especialista em medicina do sono no Cenc-Dra Teresa Paiva, continua a publicação no iSleep de um conjunto de oito artigos sobre o sono intitulado “O sono nos dias de hoje” . Eis o quarto artigo:

“Certamente, já lhe aconteceu ficar tão cansado que não se sente cansado.
Também há quem no seu dia a dia tenha a privação de sono tão enraizada que
não se aperceba dessa realidade. Ou pior, que se recusa a aperceber de que está a
dormir menos do que as suas reais necessidades. No entanto, as consequências
da privação de sono são muitas e variadas.
Do ponto de vista das respostas emocionais é expectável que um indivíduo com
privação de sono esteja mais irritável, ansioso com aumento da sua
impulsividade. Esta alteração do comportamento deve-se em grande parte à
maior sensibilidade que o lobo frontal tem à privação de sono – o maior
responsável pelo nosso comportamento social adequado.
Também uma boa parte das respostas cognitivas parecem estar alteradas com a
privação de sono como a diminuição da concentração, da atenção, da capacidade
multitasking, de decisão, de criatividade e até mesmo da memória.
Mas também podem ocorrer respostas somáticas como tonturas, aumento do
apetite ou microadormecimentos. No entanto, por mais alertas que o corpo dê
que é necessário dormir, muitas vezes, há quem insista em ignorar essa
necessidade. E rapidamente, se aumenta o consumo de estimulantes pela manhã
(café, nicotina) e de sedativos ao final do dia (desde o álcool até às
benzodiazepinas).
As consequências agudas ou crónicas da privação de sono têm riscos
significativos para a qualidade de vida, para o desempenho no quotidiano e para
a saúde física. E em parte parecem até ser determinadas geneticamente.
Indivíduos com privação de sono crónica parecem ter um risco 12% maior de
todas as causas de mortalidade. Estudos recentes têm vindo a demonstrar como
a privação de sono parece estar relacionada com o risco de demência – o sono
parece proporcionar a oportunidade para limpeza de substâncias nocivas, uma
vez que, a privação de sono parece promover a formação de placas de proteína
beta-amilóide que estão na génese da demência de Alzheimer.
Vivemos um momento mundial em que temos como um dos principais líderes
políticos e económicos Donald Trump. Trata-se igualmente de um líder no
desprezo pela importância que o sono tem – afirma no seu tom de gabarolice
habitual preferir dormir apenas três a quatro horas por dia. No entanto, mostra
frequentemente muitos dos sinais clássicos da privação de sono – impulsividade,
irritabilidade, incapacidade para se concentrar e em última análise má
capacidade de decisão. As consequências da privação de sono chegam assim bem
mais longe que o limite individual de cada um.
Contudo, há já quem tenha compreendido os riscos e as consequências de uma
sociedade privada de sono: a empresa americana Aetna paga 300 dólares anuais
a quem durma regularmente sete horas por dia, demonstrado em aparelhos que
registam sono.

Mas, e quando mesmo dormindo a sua necessidade de sono acorda de manhã e o
sono continua a não ser reparador – o que pode estar a acontecer durante a
noite?”

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