Ana Rodrigues, farmacêutica: “Os idosos têm muita dificuldade em manter o sono à noite”

 

Paula Rodrigues

Ana Rodrigues, diretora técnica na farmácia Jaime de Matos nos Anjos, em Lisboa, diz ao iSleep que a maioria dos doentes que compra medicamentos para dormir na sua farmácia são idosos, muitos deles com problemas de apneia do sono.

iSleep — Como farmacêutica, na sua farmácia vende muitos medicamentos para a insónia e outras perturbações do sono? Quantas caixas por mês?

Ana Rodrigues — Sim, bastantes. Cerca de 50 caixas de benzodiazepinas hipnóticas por mês. Em relação às vendas de benzodiazepinas não hipnóticas, esse número sobe para cerca de 150 caixas por mês.

iS — Tem a perceção que muitos ansiolíticos também são comprados para tratar as insónias?

AR –Sim claro, a maior parte das benzodiazepinas ansiolíticas são usadas para a insónia.

iS — Qual o tipo de utente que adquire os medicamentos para o sono? Também há jovens?

AR — Na esmagadora maioria são utentes com mais de 50 anos. Tenho poucos clientes  jovens a comprarem este género de medicamentos.

iS — Qual o tipo de queixas que lhe apresentam? Que adormecem tarde? Que acordam cedo? Que têm o sono interrompido?

AR — A maioria dos clientes queixa-se de dificuldades em manter o sono durante a noite. Há também quem manifeste queixas em adormecer mas menos.

iS — Surgem- ­lhe muitos doentes com apneia de sono, síndrome das pernas inquietas, outras patologias?

AR — Há muitos doentes com apneia do sono, alguns até com aparelhos no domicílio para o ressonar e a falta de ar, mas que acabam por usar poucas vezes porque dizem que os incomoda. Em relação à síndrome das pernas inquietas, só conheci uma doente com esta patologia.

Pela minha experiência de farmacêutica, estes doentes ou não procuram ou não são encaminhados pelos médicos de família para ajuda especializada, acabando estes últimos por lhes receitarem benzodiazepinas sem que se avalie melhor o quadro do doente.

iS — Muitos dos seus clientes mais idosos dizem que fazem sestas?

AR — Não, raramente assumem que fazem sestas. Penso que as fazem mas não dizem.

iS — Dá a estes clientes com problemas de insónia algumas indicações ao nível de comportamentos de higiene do sono?

AR –Por vezes damos, mas raramente estão interessados. Muitos habituaram-se às benzodiazepinas que tomam há 20 ou 30 anos. A idade avançada de alguns utentes também faz com que não tenham comportamentos autónomos com vista a melhorarem a qualidade do seu sono.

Talvez o que note é muitos dizerem só beber café de manhã. Mas em relação a outros hábitos como não ir para cama sem sono, não dormir sestas prolongadas, ter horários regulares de deitar e levantar, isso não.