“A clandestinidade não alterou o meu ritmo de sono”

Raimundo Narciso

Raimundo Narciso, ex-militante comunista, viveu na clandestinidade 15 anos mas nem por isso o seu ritmo de sono se alterou. Foi um dos operacionais da Acção Armada Revolucionária, o braço armado do PCP antes do 25 de Abril. Diz ao iSleep que antes de uma operação “o sono era menos sossegado”.  Dormiu pouco no 25 de Novembro de 1975. “Foi uma noite agitada. Alguns de nós dormimos por turnos. Do que me lembro dormi muito pouco”.

 

 O Raimundo Narciso tem um longo passado político que remonta a muito antes do 25 de Abril e à militância no PCP. Como antigo militante comunista que chegou a viver na clandestinidade, o sono era muito menos tranquilo?

Em certos momentos de maior perigo, o sono era menos tranquilo. Durante os dez anos de clandestinidade surgiram muitos desses momentos mas eram em geral episódios de uma noite. A clandestinidade não alterou o meu ritmo de sono.

Como foi visitar Moscovo penso que pela primeira vez em 1965? Que impressões trouxe?

Sem escamotear os aspectos profundamente negativos que levaram à falência do regime soviético, nomeadamente a falta de liberdade política, a característica mais impressiva que retive foi a de uma sociedade incomparavelmente mais igualitária e justa do que a do capitalismo.

Um estudo de Hight Pay Center (centro de reflexão independente) diz que os administradores executivos (CEO) de grandes empresas, no Reino Unido, tinham em 2014, um salário 183 vezes superior à média dos salários dos trabalhadores. Nos EUA os salários de alguns administradores executivos são ainda mais “obscenos”. Por exemplo, o CEO da McDonald, de acordo com David Michaels, da Bloomberg, ganha 644 vezes mais que o salário médio da empresa que dirige. Na URSS essa diferença medir-se-ia por cinco ou dez vezes no máximo.

Em Moscovo impressionava pela negativa a falta de habitação, atribuída às destruições da invasão nazi, ou a desoladora ausência de sofisticação no “design” da grande maioria dos produtos comerciais.

Pela positiva impressionava o ter-se emprego assegurado e a educação gratuita, incluindo a universitária, e o acesso fácil à cultura e à arte, a preços baixíssimos.

E como foi viver uns meses na URSS? Foi fácil adaptar-se à diferença horária?

Quanto ao sono não dei pela diferença de fuso horário.
Quanto à vida por lá, a frequência em 1966/7, de um curso no Instituto Superior do Konsomol ofereceu-me nove meses de contacto com a população de Moscovo e não só.

O curso permitiu o contacto com centenas de jovens de todas as repúblicas da URSS e de dezenas de países de todos os continentes.

Esse convívio, com a inerente troca de informação e de experiências culturais e políticas nacionais, foi um momento inesquecível. No entanto, havia uma  restrita e inconveniente diversidade ideológica, mesmo que uma parte dos alunos, quer da Europa e especialmente de África e Ásia, não fossem filiados em partidos comunistas.

E nos meses em que viveu em Cuba? Que impressões trouxe? Aqui o fuso horário era diferente e a diferença horária maior….

Quanto ao sono senti inicialmente a diferença de fuso horário e como a viagem durou cerca de 22 horas e tenho dificuldade em dormir nas viagens, cheguei a Havana praticamente com uma noite em claro. A viagem Moscovo-Havana fazia-se via Murmansk, cidade no Círculo Polar Ártico, e depois pelo Atlântico abaixo porque na altura os países da NATO não autorizavam a passagem de aviões soviéticos no seu espaço aéreo, o que obrigava a esta insólita rota.

Em Cuba o mais impressionante nessa altura, em 1965, era a intensa campanha do governo para mobilizar voluntários para o corte da cana-de-açúcar, principal fonte de riqueza da ilha. Era diário o anúncio nos media dos “campeões populares” no corte da cana em que também apareciam os hierarcas do regime, incluindo Fidel Castro. Ainda não tinham máquinas e o corte em poucas semanas de milhares de hectares de cana exigia milhares de “macheteros”.

Visitei o bairro chique de Havana onde, antes da revolução, só entravam brancos, principalmente norte-americanos com criados negros, e agora tinha as luxuosas vivendas, palácios e palacetes já um pouco degradados maioritariamente transformados em escolas dos mais diversos ofícios, bem como lares ocupados por jovens camponeses que nunca tinham visto uma cidade.

Havia ainda um investimento notável na educação e na formação de quadros científicos, em especial na medicina.

Há alguma história curiosa que recorde desses tempos na URSS e em Cuba?  

Em Moscovo vi os passageiros de um autocarro interpelarem um homem que entrou e se “esqueceu” de tirar o bilhete no dispensador de bilhetes à entrada do autocarro. Contrariado voltou atrás e lá meteu a moeda.

No Instituto Superior do Konsomol assisti à separação dramática e pungente, no fim do curso, de uma guatemalteca guerrilheira e clandestina de um colega universitário italiano não comunista. Tinham-se apaixonado mas nem o italiano se disfarçaria bem na guerrilha urbana, no caso pouco provável de se lhe querer juntar, nem ela aceitaria abandonar a luta de libertação no seu país e ir para Roma numa aventura incerta.

Em Havana, ao passear pela cidade deparei com um arraial popular fora do centro muito parecido com os da minha aldeia. A insólita diferença surgiu no fim pois na minha terra a festa não findava com a banda a tocar a Internacional.

Noutra altura, em 1983, na iminência de um encontro de delegações de Partidos Comunistas com Fidel Castro disse ao meu jovem intérprete que não era indispensável ele ir comigo porque entendia bem a língua. Respondeu-me alarmado “não me faça isso! É a minha oportunidade de falar com o comandante em chefe!”

Em Portugal viveu em várias casas clandestinas. Sentiu que diferentes condições, de local e tipologia, lhe afectaram as rotinas do sono? 

Só aconteceu nalguns casos, apesar de vivermos sempre sob a tensão do perigo, do inesperado, obrigando-nos a pensar e programar toda a conduta quotidiana.

Em certo sentido a vida clandestina era um pesadelo sem intervalos. Mas quem se preparara para tal vida, a vida estranha do clandestino era afinal uma vida “quase” normal. Sucedeu assim comigo, uma vida sem pânicos e quase quase normal. Mas houve quem não aguentasse e rumasse ao estrangeiro e até quem enlouquecesse.

Dormia bem em geral. Só em determinados momentos a seguir a algum susto ou tensão inabitual o sono era perturbado. Porque habitual era a situação de perigo.

Desenvolveu acções armadas contra o antigo regime no quadro da ARA. Nas vésperas das acções era difícil dormir?

Nesses momentos o sono era menos sossegado. Não tanto pelo perigo em si mesmo mas pelo receio de que algum imprevisto pudesse inviabilizar o plano de acção meticulosamente preparado. A noite que antecedia as acções era sem dúvida menos serena procurando mentalmente prever todos os imprevistos.

Porque é que a ARA suspendeu a luta armada em 1 de maio de 1973?

Porque se considerou que na conjuntura política em 1973, caracterizada pela participação de novas camadas da população na luta contra o regime, particularmente por influência dos chamados católicos progressistas, as ações armadas dariam pretexto a maior repressão. Por seu lado, em vez de incentivarem poderiam atemorizar tais camadas da população que só timidamente surgiam na oposição ao regime.

O 25 de Abril, menos de um ano depois, tornou definitiva a suspensão das acções e o fim da ARA.
Há historiadores que consideraram que o comunicado da ARA a anunciar a suspensão das acções era apenas uma forma habilidosa de esconder que a organização fora desmantelada pela PIDE/DGS com a prisão, por denúncia, de oito dos seus principais operacionais entre Janeiro e Março de 1973. Na realidade essas prisões foram um golpe sério na organização mas a maior parte da ARA não fora atingida, nomeadamente o comando central, os quadros ilegais e a maior parte dos “legais” assim como toda a estrutura logística. A ARA estava em condições de prosseguir a sua actividade. Parece estranho, nos tempos que correm, que uma declaração política (comunicado da ARA de maio de 1973) possa ser inteiramente verdadeira e não apenas uma forma de ludibriar eleitores. Mas a ARA não concorria a eleições.

Após o 25 de Abril viveram-se tempos políticos muitos agitados, de homens e mulheres sem sono? Lembra-se de alguma história do PREC que envolva o sono ou a falta dele?  

Houve pelo menos três momentos em que se passaram noites sem dormir, três momentos cruciais de oposição ao processo revolucionário. Dois que, derrotados, aceleraram as mudanças, a manifestação da “maioria silenciosa” em 28 de Setembro de 1974 e a tentativa de golpe do general Spínola, em 11 de Março de 1975. E um que saiu vitorioso e pôs fim ao PREC, o golpe do 25 de Novembro de 1975.

Muitos comunistas estiveram fortemente mobilizados no 25 de Novembro de 1975. Como foi essa noite? Poucos pregaram olho?     

Foi uma noite agitada. Alguns de nós dormimos por turnos. Do que me lembro dormi muito pouco.

Conheceu bem Álvaro Cunhal. Que impressões guarda dele? Apercebeu-se, em alguma conversa, se era um homem com problemas para dormir? Ou pelo contrário, tinha um sono fácil? 

Era uma figura carismática, insinuante e de vasta cultura. Com uma capacidade de trabalho invulgar. Cunhal era um líder reconhecido e de uma craveira superior, mesmo no âmbito internacional.

Na primeira reunião do comité central do PCP em que participei, no estrangeiro, em 1972, e que durou quatro dias, Cunhal trabalhava incansavelmente, dormindo escassas horas por noite, e aparentemente não tinha sono de dia.

O que pensa da expressão Deus não dorme?

Dado o ” vale de lágrimas” em que boa parte da humanidade sobrevive – tenhamos presente a catástrofe humanitária dos refugiados no Mediterrâneo, provocada pela intervenção armada ocidental no Iraque, no Afeganistão, na Síria ou na Líbia –  a expressão “Deus não dorme” tende a provar que Deus ou não existe… ou então que dorme.
A sentença serve também para convocar os simples à resignação perante as injustiças terrenas, oferecendo-lhes a recompensa e o castigo dos maus mas… no céu.

Já teve insónias? É mais “coruja” ou “cotovia”? 

Durmo bem e a tendência, depois de reformado, é para deitar tarde.

Já houve alturas em que sentiu que o sono foi bom conselheiro?

Sim. Quando o problema é complexo e não tenho de decidir imediatamente, deixo sempre a decisão para depois de um bom sono e o resultado é bom.

Tem alguma história pessoal ou profissional divertida com o sono ou a falta dele? 

Quando cumpria o Serviço Militar Obrigatório no Quartel General da 3ª Divisão, em Santa Margarida, em 1962, passei três dias de licença em Lisboa envolvido em lutas académicas com duas noites sem dormir. Quando regressei ao quartel por estar suplente ao serviço de oficial de dia, fui acordado pelo meu “impedido”. Estremunhado perguntei-lhe se já tinha perdido o pequeno almoço? Respondeu-me: “Oh meu alferes são quase horas de jantar”.

Pode contar-nos um sono fantasioso que tenha tido?

Ia num voo de treino de pára-quedismo. Quando saltei do avião e voava alegremente dei pela falta do paraquedas, então, na iminência de me esmagar no chão salvei-me acordando a tempo, em sobressalto e aos gritos.

 

 

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