“A dispersão de casos e os prazos levam os advogados a passar muitas noites em claro”

José António Barreiros é muito mais que um conhecido advogado. Foi secretário do Conselho de Ministros em 1975, chefe de gabinete ministerial no governo do Bloco Central em 1983 e secretário da Administração e Justiça em  Macau, nos anos conturbados do final da década de 1980. Tem ainda vários livros publicados sobre espiões que passaram por Lisboa durante a II Guerra Mundial. Ao Isleep fala dos tempos de estudante de Direito, em que o professor lia a sebenta e “em que se ‘chumbava’ porque não se conheciam os impostos na Idade Média”, bem como do seu percurso profissional, pessoal e político. Sobre a expressão “Deus não dorme” diz que “é uma expressa ilusória”. “Prefiro a expressão ‘Deus dorme em Auschwitz’.

Talvez a primeira pergunta a fazer-lhe, num site como o Isleep, seja de como conseguia resistir às reuniões dos Conselhos de Ministros até altas horas da madrugada, em 1975, quando foi secretário deste órgão, era Pinheiro de Azevedo primeiro-ministro?

Estava cercado dos então conhecidos “homens sem sono”. O ambiente era tumultuoso, tanto no seio do próprio Conselho de Ministros como no País. Recorde-se que estive cercado três dias na residência oficial do primeiro-ministro, vivendo a angústia quanto ao que seria a hora seguinte.

Está a falar do cerco por operários da construção civil à Assembleia Constituinte em 12 de Novembro de 1975, que envolveu também o edifício contíguo da residência do então primeiro-ministro do VI Governo Provisório, Pinheiro de Azevedo…. Foram momentos complicados?  

Lembro-me de ter ido à vazia garagem dos motoristas ter encontrado os restos de uma sardinha, de um pão duro e um pouco de vinho numa garrafa e não ter hesitado um segundo. Tinha-se acabado a provisão de bolachas que devorara no primeiro dia.

Há uma história  durante o cerco à Assembleia Constituinte, que é hoje caricata, de os deputados comunistas comeram frangos enquanto os outros passavam fome…

A história dos frangos é real. Ouvia-a da boca de um dos beneficiados por essa manifestação da “solidariedade proletária”.

Foi chefe de gabinete do ministro Almeida Santos no governo do Bloco Central PS-PSD, em 1983. Foi também um período com poucas horas para o sono?

Sim, completamente, o trabalho era duríssimo, pela madrugada fora, fins-de-semana incluídos. A nossa missão consistia na coordenação geral da governação, aqui incluindo a actividade legislativa do Governo. O ambiente era de tensão permanente. Havia projectos de diplomas legais que chegavam, vindos dos nossos parceiros de coligação, na 25ª hora, fazendo suspeitar de que conteriam qualquer “rasteira” oculta. Tinha de se estar atento a tudo. Não se podia dormir na forma. Aqui aprendi então a estar desperto para o que eram os jogos de poder.

Foi secretário da administração e justiça em Macau no tempo do governador Carlos Melancia. Macau era na altura um local político vertiginoso. Teve muitas noites mal dormidas, sobretudo antes ou depois de ter demitido um futuro ministro socialista e ter acabado também demitido pelo então presidente da República Mário Soares?  

Numa primeira fase tive sonhos ingénuos de que se poderia salvar em Macau a descolonização vergonhosa proclamada “exemplar” que tinha ocorrido nas demais colónias. Depois pesadelos quando pressenti que estava a ser envolvido numa história sinistra, com cujos negócios nada tinha a ver. Lutando pela própria honra tive talvez um despertar doloroso, o da perda da inocência quanto ao que era tido por muitos como “a política”. Depois foi o acordar para a realidade. Alberto Costa, que eu demitira, foi duas vezes ministro e eu regressei para a minha profissão de advogado. Macau foram onze meses de sobressalto.

Candidatou-se a presidente da Câmara de Sintra em 2001. Foi muito cansativo fazer essa campanha eleitoral?

Foram seis meses entre campanha e pré-campanha. Muitos dias a jantar duas vezes, em acções de propaganda. A dormitar às meias-hora de cada vez na beira da estrada, encafuado no automóvel alugado, para conseguir resistir. Fui a todas. Se saí descrente da partidocracia – tendo concorrido como independente – confesso que foi uma lição de vida. De uma coisa não me queixo: do povo com quem convivi no terreno. Indo a votos foi uma derrota total. Adivinhável desde a primeira hora. Saí esgotado física e mentalmente e carregado de dívidas.

Como foi andar na Faculdade de Direito de Direito antes do 25 de Abril?

Confesso que para mim foi quase até ao final do curso uma imensa sonolência. Aulas em que havia professores a ler a “sebenta”, em que se “chumbava” porque se não conheciam os impostos na Idade Média. Havia claro excepções. Despertei para o Direito ao ler dois livros, mínimos em dimensão. Um de Baptista Machado, sobre antropologia, existencialismo, outro de Orlando de Carvalho sobre a teoria geral da relação jurídica, seu sentido e limites.

Era amigo de José António Ribeiro dos Santos, assassinado pela PIDE em 1972. Que lembranças guarda dele?  

As mais carinhosas. Colega de carteira, porque estávamos arrumados alfabeticamente. Quantas vezes fizemos a pé o percurso entre a Cidade Universitária e Santos, onde ele morava, por Entrecampos, Saldanha e Rossio. A conversar sobre os mais diversos temas, incluindo a teologia, imagine-se. Era uma pessoa tranquila por fora inquieta por dentro. Um belo amigo e camarada.

Sei que gostava muito dos livros de Perry Mason, de Erle Stanley Gardner, o que teve influência na escolha do curso de Direito e na opção pela advocacia. Há algum caso de Perry Mason relacionado com o sono ou sonho que lembre?   

Acredita que me esqueci… Lembro-me mais dos lugares-comuns dessa sua escrita, o Paul Drake batendo à porta com o nó dos dedos e traçando a perna por cima do braço do sofá onde se sentava, a Della Street, infatigável secretária, sempre pronta a tomar notas.

Também registei que em todos os livros, Mason tinha um só caso para resolver. O pesadelo foi quando descobri, ao chegar à profissão, que a vida de advogado é desdobrar-se entre a dispersão e os prazos. Noites em claro, em suma.

E como advogado, já teve algum caso onde o sono ou o sonho tenham tido alguma relevância, mesmo que mínima?      

Os casos em que o crime é o sonho do dinheiro fácil, os casos em que os valores morais dormitam e só se acorda com o pesadelo do processo criminal. Ao chegar ao fim desse labiríntico corredor, quem a isso é sujeito já aceita tudo, assim o livrem desse sofrimento. Chegam a um ponto em que a consciência já dormita, a verdade cochila, confundindo-se com a versão que se leva a tribunal.

Tem vários livros publicados sobre espiões em Portugal na II Guerra Mundial. Viviam em tensão, por exemplo com problemas em dormir, ou pelo contrário até eram muito descontraídos?  

Havia de tudo, desde o “playboy” agente tripo “Dusko” Popov, no Estoril, ao angustiado Malcolm Muggeridge em Lourenço Marques. Mas é um ofício em que se vive a ter medo da própria sombra, mesmo quando se vive duas vezes, à semelhança do título de um dos livros de Ian Fleming. Pense-se no que foi a vida de “Kim” Philby, toupeira soviética já desde os tempos em que foi correspondente do “Times” de Londres, cobrindo o lado nacionalista da Guerra Civil de Espanha e desmultiplicando-se em declarações pró-fascistas para encobrir a sua filiação comunista.

Nasceu em Angola. Dormir em África tem um mistério especial? 

Tem as tardes de sesta com toda a Terra em cantilena de embalar, as noites magníficas mesmo quando incendidas pela trovoada, o esplendor do acordar com o raiar da aurora. Mas a minha África foi também a das noites de pavor em 1961. A guerra começara na Baixa de Cassanje. Tinha 12 anos e vivia em Malanje. O horror dos morticínios perseguiam-me as noites, tantas noites sozinho em casa.

O que pensa da expressão “Deus não dorme”? 

Que é uma expressa ilusória numa justiça no além-mundo. Prefiro a expressão “Deus dorme em Auschwitz”.

Qual a passagem literária preferida sobre o sono ou o sonho?

Um poema de Álvaro de Campos que começa assim «O sono que desce sobre mim/O sono mental que desce/fisicamente sobre mim/O sono universal que desce individualmente sobre mim —/Esse sono parecerá aos outros o sono de dormir/O sono da vontade de dormir/O sono de ser sono.»

Já houve alturas em que sentiu que o sono foi bom conselheiro? Em que medida o ajudou?

É sempre assim. Tenho um automatismo que já descobri ser inato. Quando tenho uma questão séria que não consigo resolver “durmo sobre ela” e quando acordo está resolvida. Eu próprio me espanto com isso.

Já teve insónias? É mais “coruja” ou “cotovia”?

Já tive imensas insónia. Sou um pouco de tudo, deliberadamente ou pelas circunstâncias. Sendo do signo Carneiro adoro acordar cedo para ser eu a dominar a vida e não ela a atropelar-me. Mas sinto o apelo da noite, até porque me dá espaço para aquilo que a inquietação me rói não ter feito durante o dia. Nem que seja ler ou até, o que é tão raro, coisa nenhuma.

Lembra-se de alguma história pessoal ou profissional divertida com o sono ou a falta dele? 

Os meus filhos a cronometrarem o tempo que levo entre, estando muito cansado, entrar na cama e começar a ressonar… 35 segundos é o meu melhor score.

Pode contar-nos um sonho fantasioso que tenha tido?

Sonho com muita frequência. São farrapos de acontecimentos que no subconsciente se esfarelam e surgem como num borbulhar caótico à mente adormecida. Um dos mais fantasiosos é a espectacular sensação de voar.

 

 

 

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