“Raras vezes perdi o sono”

Marcelo Rebelo de Sousa 1

O Presidente da República é um “short sleeper” mas nem sempre foi assim. Marcelo Rebelo de Sousa diz em entrevista ao iSleep que  “até aos 16 anos dormia oito horas por noite” e uma vez, aos 20 anos, na estreia de um filme francês da Nouvelle Vague,  “sentei-me no cinema, adormeci e não vi nada, nem dei pelo intervalo, nem acordava no final. Tiveram de me levar, literalmente, ao colo para casa”. De outra vez, “choquei suavemente com o automóvel num candeeiro da Marginal, onde fiquei a dormir uns minutos, até acordar e reatar o meu caminho”. 

Os tempos do PREC foram tempos sem sono. Que história recorda dessa altura relacionada com o sono ou a falta dele?

Todas as noites, durante dois  anos ou mais, foram para mim noites sem lugar para sono. Ou porque todas as noites corria de Fiat 127 a Grande Lisboa, mais a área oeste, onde era Presidente da Distrital do então PPD. Ou porque me deslocava mais longe, ao Ribatejo, Alentejo e Algarve, com a missão de aí implantar o partido, indo e voltando no mesmo dia numa altura em que não havia auto-estradas.

Também porque, apesar das tarefas partidárias, tinha aulas de manhã cedo. Ou tinha de trabalhar no Expresso para a edição de sábado ou para o Expresso-Extra de quarta-feira. Ou porque tinha reuniões das mais variadas madrugada fora. Mais tarde, entre Junho de 1975 e Abril de 1976 acresceram os trabalhos como deputado na Assembleia Constituinte. Não havia tempo para o sono… E a agitação e o stress facilitavam o não se dar por isso.

Tendo sido deputado à Assembleia  Constituinte, esteve presente  no cerco desta em Novembro de 1975. Muitos deputados não pregaram olho…

Não estive. Estava no Expresso a trabalhar. Vi a manifestação passar e quando cheguei à Assembleia já não pude passar. Mas o facto é que também não dormi em virtude de fazer a cobertura jornalística do que se passava. Estive sempre ao telefone com os colegas cercados.

Foi ministro dos Assuntos Parlamentares no VIII Governo Constitucional, chefiado por Pinto Balsemão. Havia muitos conselhos de ministros e reuniões ministeriais pela madrugada fora?

Não, não havia. Havia, isso sim, muito trabalho meu preparatório das reuniões de Secretários de Estado, a que presidia, e dos Conselhos de Ministros, que secretariava. Fiz algumas directas na Gomes Teixeira, onde ficava e fica a Presidência do Conselho de Ministros, para depois ir tomar um duche a casa e ir a casa do primeiro-ministro  Pinto Balsemão.

O que é que já lhe tirou literalmente o sono?

Raras vezes perdi o sono. Das vezes que me recorde, as mais importantes estiveram relacionadas com preocupações com filhos e netos, sobretudo quando longe de mim, o que tem sido muito frequente. Recorde-se que o filho trabalhou e pós-graduou-se no estrangeiro, entre 1999 e 2003 e lá vive, tal como todos os netos, desde 2010.

E o que é que já lhe deu sono?

Mesmo em tempos de discursos monótonos ou momentos enfadonhos nunca tenho a tentação de adormecer.

O país inteiro sabe que  Professor Marcelo Rebelo de Sousa é um “short sleeper”? Pensa que é mais uma questão do seu relógio biológico se ter habituado a poucas horas do sono ou é mais uma questão genética que vem dos tempos de criança e adolescente?

Não é genético. Lembro-me de, ainda miúdo, dormir umas oito horas seguidas e só ter deixado de o fazer pelos 15 ou 16 anos, começando a estudar noite fora. No Expresso as noitadas continuaram. Entre 1972 e 1973 recordo que ficava a discutir com a censura até às quatro ou cinco da manhã e depois tinha aulas às nove horas. Era quase só ir a casa, pegar na pasta, arranjar-me e partir para a Faculdade de Direito. Depois, com a revolução, como já referi, ainda se dormia menos.

Nos fins-de-semana pode ir às cinco ou seis horas de sono?

Nos primeiros anos, assim era…Dormia nove, dez horas no sábado ou no domingo para recuperar. Depois, durante
a Revolução, começou a não haver fins de semana para repouso. E, desde aí, a vida passou a ser mais igual toda a semana…

Lembra-se de uma história pessoal divertida relacionada com o sono ou a falta dele?

No meu terceiro ano do curso de Direito fiz várias directas para preparar as escritas de Finanças e Direito Fiscal, que eram seguidas. Na noite do segundo exame, um grupo arrancou-me de casa para ir ao cinema, a uma estreia de um filme francês da Nouvelle Vague. Sentei-me no cinema, adormeci e não vi nada, nem dei pelo intervalo, nem acordava no final. Tiveram de me levar, literalmente, ao colo para casa. Outra vez, nas idas do Expresso para casa, eram seis e meia da manhã e adormeci ao volante. Desacelerei e choquei suavemente num candeeiro da Marginal, onde fiquei a dormir uns minutos, até acordar e reatar o meu caminho. Muito mais tarde, tentaram convencer-me a tomar melatonina para aguentar melhor o ajustamento ao jetlag. Tomei e deu-me uma tal espertina que andei dias a fio sem dormir nada. Isto no início dos anos noventa.

Pode contar-nos um sonho fantasioso que tenha tido?

São sonhos todos diferentes… mas todos muito banais. De tal forma que puxo pela cabeça e não
encontro um exemplo sugestivo para contar.

Uma fotografia com o Professor Marcelo Rebelo de Sousa a dormir devia atingir um valor muito elevado num leilão…

Não valem nada disso… Aliás, há uma foto do Expresso, salvo erro, comigo a dormir, num voo para Cabo Verde em 1996.Tirada sem eu dar por isso. E publicada…

 

 

 

 

 

 

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