“A interpretação deste sonho era claríssima”

O escritor francês Michel Houellebecq conta-nos um sonho da sua personagem Florent-Claude Labrouste no romance “Serotonina”: “tive uma noite terrível, cheia de pesadelos nos quais corria o risco de perder o avião, o que me levava a empreender diferentes acções perigosas, como lançar-me do último andar da torre Totem para tentar chegar a Roissy por via aérea – às vezes tinha de agitar as mãos, às vezes bastava-me planar, conseguia-o mas à rasquinha, à mínima falha de concentração teria caído, passei um mau bocado sobre o Jardin des Plantes, a minha altitude descera para poucos metros, conseguia a custo sobrevoar o recinto das feras. A interpretação deste sonho débil mas espectacular era claríssima: tinha medo de não conseguir escapar”.

Michel Houellebecq, Serotonina, Alfaguara, Lisboa, 2019