A peste da insónia

O Prémio Nobel da Literatura, Gabriel Garcia Márquez, descreve a insónia como uma peste no seu romance “Cem Anos de Solidão”. “Uma noite, na época em que Rebeca se curou do vício de comer terra e foi levada para dormir no quarto das outras crianças, a índia que dormia com eles acordou por acaso e ouviu um estranho ruído intermitente no canto. Sentou-se alarmada, pensando que tinha entrado algum animal no quarto, e então viu Rebeca na cadeira de balanço, chupando o dedo e com os olhos fosforescentes como os de um gato na escuridão. Pasmada de terror, perseguida pela fatalidade do destino, Visitación reconheceu nesses olhos os sintomas da doença cuja ameaça os havia obrigado, a ela e ao irmão, a desterrarem-se para sempre de um reino milenário no qual eram príncipes. Era a peste da insónia Cataure, o índio, não amanheceu em casa. Sua irmã ficou, porque o coração fatalista lhe indicava que a doença letal haveria de persegui-la de todas as maneiras até ao último lugar da terra. Ninguém entendeu o pânico de Visitación . “Se a gente não voltar a dormir, melhor”, dizia José Arcadio Buendía, de bom humor. “Assim a vida rende mais.” Mas a índia explicou que o mais temível da doença da insónia não era a impossibilidade de dormir, pois o corpo não sentia cansaço nenhum, mas sim a sua inexorável evolução para uma manifestação mais crítica: o esquecimento.”

in Gabriel Garcia Márquez, Cem Anos de Solidão

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