“A sete ou oito mil metros de altitude pode acordar-se com apneias do sono a cada cinco minutos”

João Garcia, o primeiro português que em 18 de Maio de 1999 atingiu o cume do Everest, o monte mais alto do mundo, com 8850 metros, diz ao iSleep que a grandes altitudes “o ar é rarefeito e temos de respirar pelo menos três vezes mais para nos mantermos vivos”.

O feito de alcançar o cume do Everest teve, porém, um preço muito elevado.  O seu amigo Pascal Debrouwer, que o acompanhava na subida, morreu. O próprio João Garcia sofreu graves lesões nas mãos e no nariz. O alpinista recorda ao iSleep que antes da tragédia conseguiu ter um período de repouso razoável a 7100 metros, sem utilização de oxigénio :r

“A esta altitude  o ar é rarefeito e temos de respirar pelo menos três vezes mais para nos mantermos vivos. Normalmente o organismo está ‘programado’ para uma cadência respiratória de cerca de 15 vezes por minuto ou mesmo inferior em busca de um estado basal e recuperador. A sete ou oito mil metros de altitude, ou o organismo se adapta a essa cadência ou acordamos com apneias do sono a cada cinco minutos”.

Mesmo com o organismo mais ou menos adaptado, João Garcia refere que “há muitas sensações desagradáveis ao adormecer, para além de bastante frio, já que a temperatura à noite dentro da tenda é de -20ºC, o facto de termos pouco oxigénio no ar faz com que fiquemos constantemente ofegantes para sobreviver”.

O alpinista adverte que está a falar de “alpinismo puro”, aquele que pratica, “sem recurso a meios artificiais de respiração ou seja, garrafas de oxigénio”, mesmo quando dorme.

No livro “A Mais Alta Solidão” (Publicações Dom Quixote, 2002), obra onde João Garcia conta pormenorizadamente a expedição ao Everest com Pascal Debrouwer, o montanhista português tem várias partes onde escreve sobre o sono:  “o Pascal não queria dormir a 7800/7900m. Dizia que era muito alto, que ia passar mal a noite e quis descer, foi o que acabámos por fazer (…) Eu fiquei no Campo 1 a dormir. O Pascal optou ainda por continuar durante a noite do Campo 1 até ao ABC, porque defendia que em altitude não se devia dormir sem oxigénio, não se devia dormir de todo (…). Ao cabo de três tentativas (de escalada do Evereste) eu já sabia um pouco como é que o meu corpo iria reagir, já sabia que o truque é expor o organismo o menos possível à altitude. O grande inimigo e a grande dificuldade de uma subida ao monte Evereste não é a escalada técnica pura em si, mas sim a resistência que é preciso ter, o mal que a altitude faz  ao organismo. O homem não foi feito para viver naquelas paragens (…) Consegui ter um período de repouso a 7100m. O meu organismo não se ressentiu assim tanto e tive a vantagem de dormir sozinho. Numa tenda só para mim não haveria encontrões, nem gente ao lado a tossir que me acordasse. Isso acabou por ser uma vantagem”.

Na mesma expedição ao Everest, sozinho, exausto e com lesões no corpo, João Garcia ainda conseguiu ter uns momentos de sono, ainda que bastante agitado, a cerca de 8 mil metros de altitude. Logo que raiou o sol pode ver o caminho e descer ao campo abaixo e encontrar ajuda, tal como descreve também no livro já citado.

 

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