“Acordar ao som da música tocada de forma tão leve e compenetrada”

O escritor e pintor britânico, John Berger, descreve no seu livro de meditações uma noite  em que acordou com a mulher ao som da música em casa de amigos. O iSleep publica um extracto da obra.    

“Acordamos na casa um amigo, onde havia um piano. Dormíramos num colchão, no chão. O piano estava no piso de baixo. As duas crianças da casa estavam a treinar um exercício antes de irem para a escola. Um exercício para quatro mãos. Às vezes enganavam-se e voltavam ao início da frase (…) As duas crianças tocavam de uma forma leve e compenetrada e as notas iam enchendo a sala. Estavas deitada de costas para mim, os teus seios nas minhas mãos. Nenhum de nós fazia o mais pequeno movimento. A música obrigava à breve audição e nós ouviamos – olhando no vazio, tal como olhamos as  flores do papel de parede no quarto de um hotel, sem realmente as vermos. Acordar assim, ao som da música tocada de forma tão leve e compenetrada por aquelas crianças, antes de irem para a escola, foi o mais perto que alguma vez poderemos estar de acordar em casa, meu amor, antes de partirmos”.

In  John berger, E os nossos rostos, meu amor, fugazes como fotografias, Editora Quasi , Vila Nova de Famalicão, 2008.    

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