“Acredito no sono como em poucas outras fórmulas”

Margarida Pinto Correia, directora de Inovação Social da Fundação EDP, ex-directora executiva da Fundação do GIL, diz em entrevista ao iSleep que “o sono é um tema subvalorizado, desprezado e insuficientemente tratado em família, na escola e na comunicação em geral” e que “o seu poder e fascínio não têm tradição de enaltecimento na nossa cultura. Está muito por fazer…”

 

Que acções tem a Fundação EDP desenvolvido, no campo na inovação social, relacionadas com a saúde?

A Fundação EDP tem dado forte atenção nos últimos anos a projectos específicos na área da Saúde. Em 2013 levámos a cabo um projecto de apoio a estruturas de Oncologia, em consulta e cooperação com o Ministério da Saúde, trazendo para Portugal equipamentos até aí inexistentes no Serviço Nacional de Saúde que proporcionaram uma franca melhoria de diagnóstico e terapêutica a centenas de portugueses. Também actuámos nas áreas oftalmológica — no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, o primeiro centro de tumores oculares em Portugal — e neurológica cerebral, no Centro de tratamento de tumores cerebrais do Hospital Garcia da Orta, através da aquisição de um O-Arm, sistema de imagem e neuro-navegação único no serviço público português.

No ano passado o Programa de Apoio focou-se na Pediatria, equipando  cinco serviços de pediatria nacionais com materiais fundamentais e modernos: HDE, HFF,CHVNG, CHAlgarve e CH Tâmega e Sousa, num valor que ultrapassou os oitocentos mil euros.

Em 2015, o programa EDP Solidária criou uma candidatura própria para projectos quer no âmbito do SNS quer de instituições sem fins lucrativos, investindo cerca de um milhão de euros na capacitação de equipamentos e estruturas em falta na saúde pública portuguesa.

A Saúde é um direito de todas as crianças e uma condição imprescindível à sua inclusão social. Nesta medida, a Fundação EDP é apoiante incondicional da Operação Nariz Vermelho desde a primeira hora, capacitou o projecto Turma Do Bem em Portugal, chegando a milhares de crianças e jovens. Centenas de dentistas voluntários fizeram a reconstituição e acompanhamento de milhares de jovens, criando uma “ponte” socio- emocional bem desenvolvida entre escolas, famílias e apoio clínico.

A Fundação EDP já desenvolveu alguma iniciativa  relacionada com os bons hábitos de sono?

Directamente não, mas o sono é um aspecto transversal nas acções para a promoção da Qualidade de Vida e Bem estar. Em gestão de equipa, já abordámos directamente a questão. Preocupo-me que não haja abusos, mesmo perante o entusiasmo, que não haja noites curtas demais em virtude do excesso de compromissos sociais. Nem sempre levo a melhor mas promovo muito essas práticas junto da equipa, “empurro” para que tenhamos todos isso sempre presente.

E na Fundação do GIL, de que foi administradora executiva durante 9 anos, recorda alguma acção com enfoque no campo da saúde em geral? E do sono em particular?

Desenvolvemos vários projectos, como o Dia do GIL, entre 2004 e 2014, assente em dar estímulos emocionais em pediatria através de contadores de estórias, músicos e vários artesãos interactivos; o UMAD, que se iniciou em 2006, programa que se mantém activo, em que carrinhas de apoio ao domicilio transformadas e equipadas no seu interior,  levam o hospital a casa de crianças com doenças crónicas, promovendo a educação para a saúde nos familiares em ambiente doméstico; a Casa do Gil, que começou em 2006 e se mantém até hoje como Centro de Acolhimento Temporário com Cuidados permanentes de Saúde, onde as crianças que já não devem estar nos hospitais mas ainda não têm forma ou condições para ir para casa, são acolhidas, acompanhadas e estimuladas, formadas para a sua situação clinica e social. A Fundação do GIL destacou-se sempre na área da promoção do Bem Estar e Qualidade de Vida focados na criança, na sua vida, e não nos equipamentos e respostas do Estado onde aquela se poderia incluir…

Todas estas acções promoveram uma vida mais acompanhada e equilibrada a milhares de crianças. Na Casa do Gil podíamos controlar as suas horas de sono, nos seus ambientes familiares não.  Seguramente que em casa se dorme melhor que no hospital, e que no hospital se dorme melhor depois de uma sessão de boa disposição e sonho. E que os pais, quando deixam os meninos nos hospitais e voltam para casa, se os viram sorrir dormirão muito melhor…

Os estratos mais desfavorecidos são também aqueles que por vezes têm os piores trabalhos, mais perigosos e que afectam mais a saúde, como o trabalho nocturno?     

Não é uma questão de relação entre a pertença a um estrato mais desfavorecido e a prática de um trabalho mais perigoso, mas sim a equação da segurança, da cultura, do conhecimento e da atenção. Os estratos mais desfavorecidos serão mais precários nestas áreas, por desconhecimento ou incapacidade. E tornam-se por isso presas mais fáceis para a má intenção do empregador. Apesar disso, existe uma lei laboral muito específica em Portugal e uma fiscalização razoável.

O problema está mesmo na cultura, no respeito geral em relação à qualidade de vida e no que ela significa para a construção do nosso dia-a-dia e do nosso futuro em comunidade. E aí sim, somos precários e não favorecemos o conhecimento para uma melhor vivência de condições, quer laborais quer domésticas. O tema do sono é obviamente um tema subvalorizado, desprezado e insuficientemente tratado em família, na escola e na comunicação em geral.

Os portugueses têm maus hábitos de sono?

Todos os estudos o indicam, e a observação pessoal também. Não é da nossa cultura a defesa do sono, das horas diárias necessárias de descanso a um bom funcionamento intelectual e emocional. A forma como nos podemos curar pelo sono, deixando o corpo recuperar a sua funcionalidade, a forma como estamos melhor para nós, para os nossos pais, para os nossos filhos, a forma como preparar melhor um teste importante na escola, dormindo e não “marrando” toda a noite e estando exausto e sem capacidade de raciocínio de manhã foram aspectos que desapareceram com a voragem social e os ritmos alucinantes da sociedade global…

É um problema muito marcante…

O problema é termos instituído na nossa cultura a vergonha do sono. Temos vergonha de ter sono, vergonha de adormecer, vergonha de dormir, vergonha de ter sono outra vez. A sociedade de hoje permite-nos estar onde quisermos e sempre ligados, mas “esqueceu-se” de nos preparar para o “ poder estar ligado” não querer dizer “ ser escravo de estar ligado”.

Repito incessantemente aos meus filhos que as máquinas foram feitas para nos servir, e não nós a elas. Que somos nós que mandamos nos telemóveis e não eles em nós. Mas a tentação de estar ligado para um adolescente impreparado para este novo mundo que ninguém, mesmo ninguém, conhece bem, é enorme. E isso consome horas de silêncio, uma luzinha branca debaixo dos lençóis. Não pela ceia escondida, não pelo livro sobre ovnis, não pela carta de amor  mas porque pode haver mais um post, e porque há mais um 9GAG imperdível…

Esta preocupação não pode ser paranóica de modo a criar um fosso geracional, mas é urgente enfrentar o problema.

O poder do sono, o fascínio do sono, não têm uma grande tradição de enaltecimento na nossa cultura. Está muito por fazer…

Conhece bem e já viveu em países estrangeiros. Apercebeu-se de hábitos de sono muito diferentes dos portugueses?

De respeito pelo sono sim. Nos países anglo-saxónicos e no norte da Europa, o “deitar cedo e cedo erguer” impera. Também em África, mais do que respeito pelo que o sono nos pode ajudar, é o respeito por quem o tem. Voltamos ao ponto fulcral: é uma questão cultural, e as culturas não se mudam com um volte-face. Tem de haver um brutal alinhamento de vontades para alterar uma cultura de forma convincente e duradoira.

Muitos políticos admitem que dormem pouco. Acha preocupante, face a decisões essenciais que tomam?

A pergunta é muito pertinente (risos). Claro que sim. Não tinha era ainda associado o estado da Nação com a falta de sono: está tanto mais claro, agora!

Mas é preciso não esquecer que os ritmos de sono não são iguais em todas as pessoas e em todas as idades. E por isso, políticos seniores, experientes e vividos, poderão de facto dormir menos … ou adormecer em público sem que isso seja perigoso ou indicioso de testemunhos precários. É apenas indicador de uma pessoa específica. E quando começarmos esta aprendizagem pelo respeito ao sono, deveremos também ter isso em conta…

Foi mandatária para a juventude de Mário Soares na sua segunda candidatura presidencial em 1991. Foram tempos sem sono?

Foram tempos loucos, sim. Tempos de digerir o dia antes da ceia e programar o dia seguinte depois da ceia, dormir um pouco e  estarmos fortes e dinâmicos noutro ponto do país na manhã seguinte.

O Presidente Mário Soares tinha uma capacidade infinita de aproveitar o sono. Entrava no carro depois de estar numa praça cheia de populares, gritaria, barulho e discurso inflamado, e punha espantosamente a adrenalina no saco. Dois minutos depois estava a dormir. Mini sestas, às vezes de 15 minutos, até à paragem seguinte, onde os assessores lhe sussurravam onde estava. Ao sair do carro parecia ter estado horas a preparar o discurso, de novo inflamado, que contagiava a população. E assim sucessivamente. Podia adormecer ao serão enquanto programávamos o dia seguinte ou comentávamos a campanha da oposição, mas ouvia sabiamente tudo… e dormia, e comentava, e dormia, e comia, e falava, e estava sempre presente. Um dom, invejável dom,  mas não comum.

Para mim foram tempos de aprendizagem e tinha boa idade para aguentar,  então com 24 anos. O truque é conhecermo-nos bem, ao nosso corpo, à nossa cabeça, aos nossos limites. Ouvir o corpo e respeitá-lo acima de tudo. Os estímulos pontuais, a cada momento da nossa vida, fazem o resto. E andar em campanha obviamente que alimentava o motor de qualquer um muito mais que uma simples rotina laboral, mesmo quando se adora o que se faz.

O problema, repito, é termos instituído na nossa cultura a vergonha do sono. Temos vergonha de ter sono, vergonha de adormecer, vergonha de dormir, vergonha de ter sono outra vez…

Os seus pais eram ambos médicos, o professor José Pinto Correia e a sua mãe Maria Adelaide Pinto Correia. Que exemplo lhe legaram? 

O do respeito, da independência, da responsabilização por todos os actos e pelo que provocamos nos outros, foram a trave mestra.

No campo do sono eram implacáveis, nas horas de dormir, na necessidade de dormir, na insistência, mesmo já em tempos de faculdade, de que o dormir era a melhor forma de colher resultados, de aprender, de deixar o dia assentar nas caixinhas cá de dentro, para que novo espaço se criasse. Sem arcas cheias de tralha, onde se mandamos tudo lá para dentro torna-se menor a sua capacidade e muito mais difícil a possibilidade de se encontrar o que se procura.  “Lá em casa” aplicava-se uma arrumação feita pelo sono, biologicamente explicado e publicado, definitivamente inabalável.

António Galhordas escreveu, num artigo emocionado em memória do seu pai, que ele foi traído aos 57 anos pelas costas pela ciência, que tanto acarinhava…  

A Ciência não tinha ainda as ferramentas suficientes, a destreza suficiente, as fórmulas certas. Que aliás não chegaram a tempo a tantos outros, que a cada segundo são dessa forma “traídos” pelo que ainda não se sabe, pelo que não se soube a tempo, pelo que não se conseguiu saber.

Mais uma razão para acarinhar a ciência. Ela não o traiu, só lhe foi insuficiente. Mais uma razão para empurrar a busca, para promover a saúde, para encontrar as formas de promover qualidade de vida, e para apostar em quem estuda o Ser Humano com talento, rasgo e visão. Acredito que era o caso dele, e ainda bem que assim foi.

Enquanto esteve, estudou. O que soube, partilhou. É o melhor caminho que a Ciência pode ter.

A literatura está repleta de referências ao sono e ao sonho. É um mistério que os escritores gostam de retratar?    

É um mistério insondável, desconhecido, para alimentar ilusões e criatividades, para permitir ficcionar sem se estar sempre a correr riscos.

É melhor ainda que ser actor, é um “sem querer” delicioso, que permite pôr tudo lá dentro. Que nos assombra para o terrível e para o maravilhoso. Que nos faz por vezes não querer acordar e outras correr para o colo da mãe. Que nos traz pessoas desaparecidas e nos cria pessoas novas, que faz de nós o impensável e o indizível. Um espelho mais puro que os outros, mais mágico que os outros, mais honesto que os outros…

O que pensa da expressão Deus não dorme? 

Gosto dela. Dá-nos um colo permanente, uma justificação completamente desadequada mas muito reconfortante para o que não conseguimos justificar. Mas é só num primeiro instante. Num segundo momento já a acho castradora e punitiva. E desresponsabilizante para o comum dos mortais, que gostam muito de se desresponsabilizar…

O sono é bom conselheiro? Em que medida a tem ajudado?

Quando vou à televisão ou tenho uma qualquer intervenção que requer maquilhagem, normalmente as profissionais perguntam “ como quer a sua maquilhagem, levezinha?”, e eu respondo sempre “ com menos dez anos e mais dez horas de sono”. Acredito no sono como em poucas outras fórmulas. E faz-me falta, muita falta. É bom conselheiro, não por ser visionário, não porque tenhamos nele a epifania desejada  mas porque nos repõe os níveis, a capacidade, a intelectualidade e a gestão emocional necessária a fazermos posteriormente bons julgamentos e tomarmos boas decisões. Numa família de substantivos, eu diria que o sono é o pai das boas decisões…

Tem comportamentos de higiene do sono como não beber café à noite, deitar e levantar a horas regulares, etc?

O único inabalável é levantar a horas regulares, porque levo os meus filhos ao liceu e gosto de o fazer. O café não me tira muito o sono, por isso se janto fora tomo, mas quase sempre em casa, não tomo. Para não exagerar, porque de facto tomo uns quantos por dia… deito-me assim que posso, o que nem sempre é sinónimo de assim que devo.

Costuma ter insónias? É mais “coruja” ou “cotovia”?

Adoro as manhãs, quer física quer intelectualmente. Adoro as noites em termos criativos e de partilha. Idealmente o meu dia teria dois meios-sonos …  Acordo às 6 horas e 45  aos dias de semana, quer me apeteça quer não.

Como tive uns últimos anos de vida mais conturbados emocionalmente, senti pela primeira vez fragilidade no sono, que era até há uns anos impecável. Também tem a ver com a idade, mas não acho graça nenhuma a isso porque continuo a defender uma boa noite de sono mesmo não praticando. A defender e a procurar!

Há alguma história divertida que recorde, no campo profissional ou pessoal, relacionada com o sono? 

Algumas. Em 2008, numa viagem atribulada de trabalho, estávamos a construir uma rota de viagem para DVD e rádio. A rádio era em directo de manhãzinha. Fazíamos reportagem de dia, dormíamos sempre em sítios diferentes, e à noite, quando o produtor e o repórter de imagem se deitavam, eu ficava a escrever a crónica do dia para a manhã seguinte. Dormia pouco e estava sempre alerta. Na noite dos meus anos conseguimos muito tarde ir a um restaurante, onde jantámos bem e bebemos calmamente um vinho branco, uma garrafa para três, coisa moderada para festa-em-trabalho. Fomos para o quarto, eles adormeceram e eu pus-me a escrever. Acabei, levantei-me e fui deitar-me. No dia seguinte quando li o que tinha escrito, não queria acreditar. Pelo meio da crónica estavam sonhos, estavam filetes de peixe e palavras sem nexo. Adormeci, literalmente, a escrever. E continuei a escrever o que estava a sonhar! Adorava que me voltasse a acontecer… mas foi muito assustador.

Menos divertida mas igualmente deliciosa, na minha primeira ida à Antárctica, onde os dias se colam e há umas três horas de lusco fusco a atirar para o escuro mas que não chega a sê-lo,  ninguém se conseguia deitar cedo… e eu tinha de gravar crónicas por satélite às três horas da madrugada porque era o arranque das manhãs na TSF, sete horas da manhã em Portugal. Com o navio adormecido, ia para a Ponte ter o Skipper enquanto esperava satélite, depois de ter dormido duas horas. Ficava ali em deleite  a ver os reflexos dos glaciares e os sonares com icebergues tão perto… gravava, e voltava para a cama. Mais duas ou três horas e era altura de pequeno-almoço a bordo. Depois as palestras, a investigação e dados para a próxima ida a terra… Numa hora de intervalo ia dormir. Voltava, equipava-me, ia a terra nos zodíacos recolher sons de baleias, pinguins, albatrozes ou glaciares a gemer…voltávamos para bordo, chocolate quente…e ia dormir uma horinha. Por aí fora. Uma espécie de não-tempo em que o biorritmo fica tão em suspenso que alinha connosco, dormes quando podes, recupera para o que vem a seguir que não sabes bem o que é. Assim, sucessivamente, dez dias. Sem um abalo, um mal estar, uma sensação de mudança perturbadora. Quando voltei à Argentina voltei imediatamente a dormir normalmente… Ainda hoje quando conto, não percebo. Mas foi bom.

Pode contar-nos um sonho fantasioso que tenha tido?

Não, porque os sonhos são o nosso último resquício de privacidade, como os pensamentos. São mesmo só nossos, e gosto de os manter assim, a não ser que envolvam pessoas que conheço e que seja divertido ou comovente contar-lhes. Gostei muito das poucas vezes que sonhei com o meu Pai, e ralho com o meu subconsciente por não mo oferecer mais vezes!

 

 

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