“Adormeci no Conselho de Segurança da ONU”

 

Fernando Neves

O embaixador Fernando Neves teve um importante papel no processo de paz em Angola em 1992 e no processo de independência de Timor-Leste nos anos 1990. “Depois de 11 dias em que mal dormi após os resultados do referendo timorense de 1999 e a eclosão de violência, adormeci no Conselho de Segurança da ONU”, diz em entrevista ao iSleep.

Fez o serviço militar em Angola. Como se dormia em tempo de guerra? 

Dormia-se bem e com o cansaço físico ainda melhor.

Onde estava no 25 de Abril? Como viveu os tempos do PREC?

Estava em Luanda. Vivi com alegria, emoção, entusiasmo e participação possível para evitar derrapagens, para um lado ou outro.

Teve uma importante missão diplomática no final dos anos 1990 em relação a Timor. Que memórias guarda desses tempos difíceis?

As negociações de Timor, que conduzi ao nível diplomático, foram o clímax da minha vida profissional e da minha carreira. Foram os melhores anos da minha vida profissional, com uma dedicação total e absorvente aos nossos objectivos.

Foi uma negociação muito dura, no início com um ambiente hostil a nível internacional, mesmo por parte dos nossos aliados e sobretudo da Comissão Europeia. Para não falar da comunicação social portuguesa que nos fez a vida negra, sempre desconfiada e a não perceber o que se passava. Conseguimos tudo o que queríamos. Ultrapassou, do ponto de vista profissional, todas as minhas ambições e deixou a milhas tudo o resto que fiz na carreira.

E de Angola, onde foi embaixador em 2001, perto do fim da guerra?  

Angola foi um posto fascinante, um verdadeiro desafio. Tive a oportunidade de, como representante de um dos países da Troika das Nações Unidas de acompanhamento do processo de paz, assinar o Tratado que pôs fim à guerra, em Maio de 2002.

Há alguma história curiosa de José Eduardo dos Santos e Jonas Savimbi que recorde?

Não conheci Savimbi. Histórias curiosas de José Eduardo dos Santos, nem por isso. Talvez um jantar em que ele lembrava com o irmão mais velho dele as serras, rios e caminhos de ferro de Portugal, que se estudava na 4ª classe em todo o “império” português.

Tem viajado por muitos países do mundo. Notou hábitos de sono ou comportamentos de higiene do sono muito diferentes dos portugueses?

Nós temos uma vida até mais tarde. Nos países nórdicos começa e acaba cedo. Nos países tropicais começa cedo e acaba tarde, talvez com uma sesta pelo meio.

Foi difícil adaptar-se a diferentes fusos horários na vida diplomática? 

Não, não foi difícil.

Tem comportamentos de higiene do sono, como deitar a horas regulares, não beber café, etc?

Deito-me e acordo a horas regulares, mais tarde e menos fixas desde que me reformei.

O que pensa da expressão Deus não dorme?

Pelo que sempre se passou e passa no mundo se não dorme parece.

Já houve alturas em que sentiu que o sono foi bom conselheiro?

Sem dúvida.

Já teve insónias? É mais “coruja” ou cotovia”?

Felizmente é raro ter insónias, embora com a idade e sem o quadro de trabalho me custe mais adormecer. Sou mais “coruja”.

Lembra-se de alguma história pessoal ou profissional divertida com o sono ou a falta dele? 

Depois de 11 dias em que mal dormi após os resultados do referendo timorense de 1999 e a eclosão de violência no território, adormeci no Conselho de Segurança quando o Presidente declarou aprovada a resolução a permitir a intervenção militar internacional.

 

 

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