Ana Paiva Nunes, médica: “Temos cada vez mais insónias em contexto de depressão”

Ana Paiva Nunes

Ana Paiva Nunes, 38 anos, especialista em medicina interna no Hospital de S. José, em Lisboa, trata doentes com insónias por causa de quadros depressivos ou receio de terem um novo  AVC. Não se ressente das quatro urgências por mês de 24 horas que faz porque é nova mas “a família sabe que é um dia de pouca paciência e fácil irritabilidade”.

Quantos bancos de urgência nocturna faz por mês?

No mínimo faço 4 urgências de 24 horas por mês.

Este trabalho nocturno desequilibra-lhe o ritmo do sono nos dias seguintes? Em que medida?

Ainda não, não me desequilibra o meu ritmo de sono porque ainda sou relativamente nova e desde que sou médica, há já 14 anos, que este é o meu ritmo de sono.

Também lhe causa desajustamentos no campo familiar ou social? Em que medida?

No campo familiar, toda a família sabe que o dia de saída de banco é um dia de muito pouco paciência e muito fácil irritabilidade. Do ponto de vista social tento não agendar nada para o dia de saída de banco, o que não é possível com frequência e portanto torno-me numa companhia um tanto enfadonha.

Que comportamentos de higiene do sono costuma adoptar para  si própria em virtude dos bancos de urgência à noite?

Se não for possível descansar durante o período de urgência, o que ocorre com frequência, no dia seguinte, uma vez que tenho que continuar a trabalhar, tento deitar-me mais cedo.

Como especialista em medicina interna, na sua actividade clínica surgem-lhe certamente muitas queixas de insónia. Quais as patologias onde estas queixas surgem com mais frequência?

Eu trato doentes com patologia cerebrovascular, onde a insónia na fase inicial após AVC se relaciona com o medo de ter um novo AVC ou morrer durante o sono; na fase subaguda começamos a ter mais insónias em contexto de depressão. Trabalho também num lar de idosos onde a insónia é o problema mais prevalente.

Costuma dar a estes doentes com problemas de insónia indicações imediatas ao nível da higiene do sono? Quais?

Aos idosos dou imensas indicações de higiene do sono, nomeadamente a necessidade de saírem à rua e apanharem sol mas a prevalência de dependência de benzodiazepinas é enorme.

Acha que os cursos de medicina em Portugal dão a devida atenção às patologias do sono e ao seu tratamento nos seus planos curriculares?     

No meu caso, só aprendi as patologias do sono após o curso de medicina. Actualmente não sei como está organizado o curriculum do curso de medicina.

Tem alguma história curiosa relacionada com o sono na sua actividade de médica?

Acontece-me às vezes quando estou de urgência e estou muito cansada, na única horinha que se consegue descansar, as enfermeiras ou enfermeiros fazerem-me perguntas relativamente a um dos doentes internados e eu responder adequadamente, não tendo depois qualquer memória do acontecimento quando acordo. Torna-se caricato de manhã dizerem-me que fez isto e aquilo como eu lhe tinha pedido e eu não ter a mínima ideia de o ter feito. A sorte é que, pelo que sei, ainda não dei nenhuma indicação errada e os meus enfermeiros conhecem-me bem.

 

 

 

 

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