“As viagens são sonos em movimento”

Agustina Bessa Luís fala-nos do sono de uma forma muito original, como sempre foi característica da escritora na análise do que a rodeava. “A irmã de Sandra era do tipo sonolento, o que é um tipo muito comum, como o de certas espécies de pássaros que se aglomeram em massas compactas para se aproveitarem do sono colectivo. Há certas espécies que organizam sonos colectivos como se fossem autênticas orgias hipnóticas. Eu creio que o grande número de alunos nas escolas favorece esse estado de sono que, naturalmente, não é benéfico ao estudo. Mas com a irmã de Sandra passava-se outra coisa: a sua sonolência era uma espécie de prazer e derivava dos seus desejos insatisfeitos. A única maneira de se aproximar duma forma de plenitude era viajar. De resto, as viagens que se tornaram tão apetecíveis e que gozam de tanta popularidade, não são mais do que sonos em movimento. Parece estranho como tanta gente, carregada de malas e de sacos, correndo pelas gares e aeroportos com o seu telemóvel apontado para os lugares que lhe são familiares, a casa ou o emprego, não fazem mais do que dormir tranquilamente, como se estivessem na própria cama. Reparem se não é assim, e depois me dirão”.

In Agustina Bessa Luís, As Estações da Vida, Quetzal Editores, Lisboa 2002

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