“As Vinhas da Ira”: “as pessoas acordavam com a partida do vento”

 

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“A noite que se seguiu foi uma noite negra, cuja espessura as estrelas não conseguiam perfurar com o seu brilho; a poeira grossa impedia que as luzes das janelas avançassem um passo que fosse. A poeira misturara-se ao ar como se formassem um só corpo; era uma emulsão de ar e de poeira. As casas foram fechadas e trapos enfiados nas frestas das portas e das janelas, mas a poeira penetrava de maneira sutil, uma poeira fina que não se via e que se assentava qual pólen nas mesas, nas cadeiras, nos pratos de comida. As pessoas sacudiam-na dos ombros. Pequenas linhas de poeira repousavam, às soleiras das portas. Pelo meio da noite amainou e por fim cessou a fúria dos ventos e a quietude desceu sobre os campos. O ar empoeirado encobria tudo com mais perfeição que um nevoeiro.

Deitadas em suas camas, as pessoas ouviam o vento parar. Acordavam com a partida do vento. Deixavam-se ficar quietas, perscrutando o silêncio. Os galos cantaram depois, e seu canto soou fraco, e as pessoas nas camas esperaram extenuadas pelo romper do dia. Sabiam que levaria longo tempo até que a poeira repousasse na terra. Pela manhã a poeira pendia pesada, qual espessa neblina, e o sol ressurgia sangrento. O dia todo a poeira caiu sobre a terra, e caiu sobre ela no dia seguinte ainda. Assentava-se sobre as espigas e as estacas das cercas; pousava nos telhados, cobria as plantações, as árvores.”

 

In “As Vinhas da Ira”, de John Steinbeck

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