“Como tinha bebido tanta água não tardava a levantar-me de novo”

Roberto Bolaño descreve a insónia de um personagem do seu livro “Putas Assassinas”, um romance inédito de 2001 do escritor chileno agora publicado em Portugal.

“Á noite custava-me dormir. Tinha pesadelos. Antes de me meter na cama assegurava-me que as portas e as janelas do meu quarto estavam hermeticamente fechadas. Ficava com a boca seca e a última solução era beber água. Levantava-me continuamente e ia à casa de banho para encher o copo com água. Já que estava levantado, aproveitava para verificar uma vez mais se tinha fechado bem a porta e as janelas. Às vezes esquecia-me das minhas apreensões e ficava junto à janela observando o deserto de noite. Depois voltava à cama e fechava os olhos, mas como tinha bebido tanta água não tardava a levantar-me de novo, dessa vez para urinar. E já que me tinha levantado voltava a verificar as fechaduras do quarto e voltava a ficar quieto a ouvir os ruídos distantes do deserto (motores em surdina, carros que seguiam para norte ou para sul) ou a ver a noite através da janela. Até que amanhecia e então por fim conseguia dormir algumas horas seguidas, duas ou três quando muito”.

In Roberto Bolaño, Putas Assassinas, Quetzal, Lisboa 2017

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