“Dormi pelo menos 7 horas nalguns dos meus melhores trabalhos”

 

Cristina Esteves

Cristina Esteves, jornalista e pivot de informação na RTP há quase 20 anos, afirma em entrevista ao iSleep que os jornalistas mas também muitos profissionais de outras áreas estão pouco sensibilizados para os efeitos dos horários irregulares e noturnos e das noite mal dormidas.   

Os jornalistas têm muitas vezes horários irregulares e noturnos que afetam o ciclo sono-vigília. Acha que a classe está sensibilizada para este problema?

A sociedade em geral, incluindo entidades patronais, não está sensibilizada para a questão e para as consequências que poderão ser causadas por essa situação que incide nesta profissão mas também noutras.

Tem realizado muitos trabalhos jornalísticos na área da justiça. A legislação mais restritiva sobre o ruído, de forma a não perturbar o descanso das pessoas já tem quase dez anos. Acha que os portugueses já interiorizaram que há horas sagradas para dormir e não fazer barulho?  

Não se pode generalizar. Haverá quem já tenha interiorizado essa obrigação que é um dever cívico e de respeito de liberdades individuais. Mas quem trabalha por turnos deverá ter bem presente a necessidade que tem de dormir e não conseguir por força do ruído exterior…

Como jornalista como descreveria a relação dos portugueses com o sono? E comparativamente com outros cidadãos estrangeiros?   

Na atual sociedade dita global não haverá muitas diferenças no relacionamento dos cidadãos com o sono. Sem o suporte técnico para tal não arrisco a afirmar mais do que somos todos cidadãos do mundo, mas cada um, individualmente, tem as suas especificidades. Por isso, há quem tenha mais necessidade de dormir do que outros. Para alguns, haverá mesmo uma relação de amor/ódio. A vontade e a necessidade de passar por esse pequeno grande prazer é muita mas o tempo escasseia para se conseguir cumprir tudo a que estamos adstritos. Para outros, será uma paixão quase que utópica.

Acontece-lhe acordar a meio da noite ou já de manhã com uma ideia relacionada com o trabalho jornalístico? Costuma registá-la?

São várias vezes em que acordo com ideias relacionadas com o trabalho mas não as escrevo. Acredito sempre que me lembrarei dessas ideias, o que normalmente sucede, mas com menos pormenores.

O mundo moderno faz com que muitas pessoas durmam cada vez menos. Estamos a desafiar perigosamente o nosso relógio biológico?

Julgo que sim, e os cientistas melhor do que ninguém podem dar um cabal esclarecimento sobre a matéria, nomeadamente os custos que no futuro poderão surgir.

A literatura e a arte retratam bastante o sono e o sonho.  Como as interpreta?  

 São partes essenciais da nossa essência e da nossa existência.

Lembra-se de algum momento da sua vida em que o sono tenha sido bom conselheiro? Em que medida a ajudou?

O ideal é conseguir dormir para não ter mesmo sono. Sem estarmos descansados perdemos eficácia e os sentidos ficam mais limitados. Penso que alguns dos meus melhores trabalhos aconteceram em alturas em que consegui dormir pelo menos 7 horas.

Adormece facilmente? Já teve insónias? Costuma contar carneiros? Ou ninguém conta carneiros?

Gostaria de poder dizer que adormeço sempre com facilidade. Mas não. Depende de vários fatores: emocionais, profissionais… Julgo que a contagem dos carneirinhos não será o melhor remédio mas já foi tentado por inúmeras vezes.

Freud disse que “o sonho é o fiel guardião da nossa saúde psíquica, da nossa alegria de viver, uma vez que a vida não passa de uma contínua procura do prazer, contrariada pela realidade”…

E viver é um privilégio. O sonho faz parte da nossa realidade com a busca contínua desse prazer que é o sonho.

Pode contar-nos um sonho ou pesadelo que tenha tido?

Em criança acordava muitas vezes a pensar que perdia pessoas de quem gostava. Infelizmente aconteceu. Demasiado cedo.