Deambular ou sonambular? Inconsciência ou crime?

TDM Entrevista ... Teresa Paiva - YouTube - Google Chrome_2014-10-19_13-20-17

Fonte: TDM

Existe a convicção generalizada de que andar durante o sono equivale a ter sonambulismo. É uma convicção equívoca que leva a frequentes erros de diagnóstico ou a grandes atrasos na ida ao médico.

Porquê? Porque andar durante o sono pode ser devido a várias causas e, consequentemente, ter tratamentos diferentes.

Pode efetivamente ser devido a sonambulismo. O sonambulismo é uma doença bem definida, porque é mais frequente nos rapazes, é familiar, começa em redor dos 5-6 anos de idade e tende a desaparecer na adolescência. Os episódios surgem classicamente no sono delta, ou sono profundo, cerca de 1 hora depois do adormecer e não se repetem mais na mesma noite. O sonâmbulo tem uma memória vaga ou quase nula dos acontecimentos, anda pela casa de uma forma ordenada mas inconsciente, pelo que corre riscos de acidentes, como cair por uma escada ou de uma janela, partir objetos, etc. Geralmente, não é agressivo, mas pode ter agressividade se contrariado.

O sonambulismo pode ser provocado por alguns fármacos psicoativos, e ser agravado pelo álcool, drogas, febre ou pela privação de sono.

O conhecimento disto é muito antigo. Já na Odisseia surge porventura o primeiro caso descrito e agravado pelo álcool, em que Elpenor, guerreiro da guerra de Tróia, tendo bebido vinho após uma batalha, subiu a um telhado onde dormiu. Quando, na manhã seguinte, foi chamado para embarcar, levantou-se, andou pelo telhado, caiu e morreu. A Síndrome de Elpenor refere-se, pois, a isso mesmo e aos riscos dos episódios de deambulação quando se está a dormir ou se acorda subitamente num alerta confusional.

Violência no sono?

Há dois anos o filme Side effects também tratou o assunto, descrevendo um crime executado num “pseudo” episódio de sonambulismo desencadeado por um antidepressivo e que teria sido “perfeito”, se um psiquiatra não o tivesse investigado usando um raciocínio policial.

O psiquiatra poderia ter usado um raciocínio mais clínico, ou seja, perante um caso de violência noturna, há que investigar com imenso rigor e isenção, reproduzindo comportamentos, fazendo testes, estudos de sono, e outros exames necessários, para determinar se a violência, com ou sem crime, resulta de maldade ou de doença.

Sim, claro, a violência pode existir no sono e é, nesse caso, particularmente perigosa. Porquê? Porque quem a executa está inconsciente e a intensidade dos atos pode ser grande.

Quais as causas?

O sonambulismo, os terrores noturnos e os alertas confusionais podem ser causa de violência ou de acidentes.

Outro caso é a epilepsia noturna. Algumas epilepsias surgem exclusivamente ou predominantemente de noite e manifestam-se por episódios com comportamentos simples (movimentos dos membros, gritos, etc.) ou complexos (andar, sentar na cama, cair da cama, agredir, bater, etc.). Confundidas com sonambulismo, não são tratadas. Quais as diferenças? As epilepsias podem surgir a diferentes horas da noite ou no adormecer, podem ocorrer várias vezes na mesma noite, os comportamentos são estereotipados e deles não há memória no dia seguinte ou quando se acorda. O acordar é difícil, com dores no corpo, dores de cabeça ou confusão. As epilepsias podem surgir em crianças, em adultos e em idosos, e algumas são mesmo familiares.

Outros casos ainda que, classicamente, surgem principalmente em homens idosos são os transtornos comportamentais do sono REM. O que é isto? São episódios que ocorrem no contexto de um sonho, durante o qual alguém está a agredir ou o doente ou um familiar. O doente defende-se e, nessa defesa onírica, agride violentamente quem está próximo, salta da cama como se voasse, esbraceja, etc. Quando acorda com alguma dificuldade, muitas vezes ou porque alguém está a gritar ou porque se magoou, vê a desgraça que provocou e arrepia-se: são olhos negros, pescoços apertados, feridas e sangue, braços partidos, etc., etc., sempre coisas más. Quem o faz é geralmente pacífico e cordato e não está de modo nenhum a exprimir violência, antes pelo contrário, esteve a defender-se dela.

O que aconteceu? Teve sonhos em que era vítima de violência, durante os quais, por não ter a clássica, normal e protetora “atonia do REM”, que nos paralisa transitoriamente, executou mesmo o que estava a sonhar.

Tanto as epilepsias como o transtorno comportamental do sono REM carecem de tratamento eficaz e imediato por especialistas em Medicina do Sono ou por Neurologistas. O sonambulismo, na maior parte dos casos, carece de medidas protetoras e profiláticas.

Portanto, nunca confunda uns com os outros, porque muitas vezes andar a dormir não é sonambulismo.

 

 

 

Comments are closed.