Dois sonhos de Susan Sontag

A escritora e pensadora norte-americana conta dois sonhos que teve na mesma noite, ambos relacionados com os seus alunos universitários:

“Um aluno ataca-me na aula. Não consigo compreender porque me odeia tanto. Ninguém na aula me apoia. Começa quando ele está a tocar harmónica (de uma forma muito bela) – eu começo a falar, digo-lhe para parar de tocar, mas ele não faz. Eu irrito-me, vou e tiro-lhe a harmónica. Regresso à frente da sala. Ele tira outra harmónica. Eu digo-lhe que o vou chumbar (…)

Numa outra aula (Columbia College) há também um motim. Eu estou a dizer alguma coisa crítica sobre a américa, algo muito brando – subitamente todos os alunos tiram pequenas folhas de papel quadradas e deitam-lhes fogo (é um pequeno auditório). Faz-se um silêncio perfeito. Eu paro. Depois apercebo-me de que é uma declaração, um sinal, um bruxedo. Eles são todos (quatro quintos, digo eu depois) membros de uma organização fascista estudantil. Sou condenada.

O resto do sonho é passado em escritórios à espera do reitor, para explicar. Encontro Friess. Ele depois transforma-se numa velha – ele (ela) está muito ocupada, tem de ir para casa, mas faz-me companhia, enquanto espero. Eu explico como estou surpreendida. Que em tantos anos a dar aulas nunca me tinha acontecido nada assim – e logo duas vezes no mesmo dia”

In Renascer, Diários e Apontamentos , Susan Sontag 1947-1963, Quetzal, 2010