“Durante o sono podia imaginar o espaço livre por cima da minha cabeça”

O pintor Paul Gauguin fala do período em que viveu no Taiti, na década de 1890, da sua vida e também do seu sono, no livro “Noa Noa”, que em maori quer dizer “como cheira o Taiti”.

“A noite caiu depressa —  Moorea dormia. O silêncio. Eu aprendia a conhecer o silêncio de uma noite tahitiana.  Só as batidas do meu coração se poderiam ouvir. Da cama eu distinguia as canas da minha casa, que alinhadas com um espacejamento regular filtravam as claridades lunares. Dir-se-ia um instrumento musical, a charamela antiga a que os naturais de Tahiti chamavam vivo. Era, porém, um instrumento que durante todo o dia mantinha o silêncio mas, de noite, graças à lua, vinha redizer-nos na memória as árias passadas. Adormeci com esta música. Entre mim e o céu nada, além do grande telhado leve e alto, de folhas de pandano, onde os lagartos viviam. Durante o sono podia imaginar o espaço livre por cima da minha cabeça, a abóbada celeste, as estrelas. Estava bem afastado dessas prisões, as casas europeias. Uma cabana maori não exila, não separa o indíviduo da vida, do espaço, do infinito”. 

In Paul Gauguin, Noa Noa, Assírio e Alvim, Lisboa 2003

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