“Durmo com as peças de teatro debaixo do travesseiro”

João Mota, 72 anos, é actor há mais de 60, um dos mais reputados profissionais portugueses, fundador do Teatro da Comuna, encenador, professor de teatro. Sobre o sono diz ao iSleep: “resolvo muitas coisas na minha vida à noite, a dormir, até no que se refere às peças de teatro. Penso como é que vou sair desta, como é que vou resolver isto, durmo e no dia seguinte sai tudo limpo, há uma limpidez em que sei o percurso todo”.

Começou como actor na Emissora Nacional nos anos  1950. Como foram esses tempos?

A Madalena Patacho, irmã do Henrique Galvão, era responsável dos programas infantis da rádio e lançaram um concurso  para seleccionar crianças  como actores. A minha irmã, a Teresa Mota,  mais velha que eu dois anos, enviou um bilhete postal e mandou também um em meu nome sem me dizer nada. Fomos prestar provas, ela ficou logo, eu tive de esperar porque tinha a voz muito grossa e parecia um miúdo de 12 anos. Entrei no programa com 10 anos .

Depois penso que fez peças na televisão, nos tempos iniciais da RTP?

O Rui Ferrão, um dos  primeiros realizadores de televisão foi buscar-me à rádio para fazer peças de teatro, que eram em directo, o que é bastante interessante. Fiz várias peças seguidas, “O Mar” do Miguel Torga, “O Monólogo do Vaqueiro” de Gil Vicente. Tinha então 14 anos e o meu nome artístico era João Manuel.

E como é que entra no Teatro Nacional? 

O Pedro Lemos, director de cena do Teatro Nacional, ouve-me a dizer poemas na Rádio Peninsular e lembra-se de mim para a peça “O Processo de Jesus”. A minha irmã já era actriz lá, entrava nas “Bruxas de Salem”. Estive dez anos a trabalhar no Teatro Nacional.

Lembra-se do incêndio em 2 de Dezembro de 1964? Foi uma noite sem sono?  

Estávamos a fazer a peça “Macbeth” de Shakespeare, eu representava o filho mais novo. Na altura vivia com a minha mãe, cheguei a casa perto da meia noite emeia. Ouvi um pouco de rádio, que na altura se ouvia muito, li um bocado e deitei-me à uma e tal. Às quatro da manhã telefona-me uma pessoa do teatro a dizer que o Teatro Nacional estava a arder. Levantei-me e saí de casa para o Rossio, onde estavam já muitos colegas. Lembro-me de ver as labaredas. Foi como perder a minha casa… Foi de facto uma noite sem sono porque dormi muito pouco, menos de três horas.

O sobre-aquecimento do palco, causa de um curto-circuito, terá sido o que provocou o incêndio?

Até hoje todos os inquéritos sobre o incêndio  foram inconclusivos.

O João Mota interrompeu o teatro e fez depois a guerra colonial…

Estive na guerra colonial três anos, em Angola, nos Dembos de 1966 a 1968. Fui mobilizado a um mês de sair, após fazer o curso de sargentos milicianos em Mafra durante dois anos.

E esteve no mato angolano? Enfrentou situações de perigo? 

Tive várias situações de perigo em operações de reconhecimento. A minha missão foi também a acção pedagógica sobre homens dos movimentos de libertação que se passaram para o nosso lado. Vivi momentos díficeis.  Houve um Natal em que apanhei um pifo muito grande e sai de pijama para o mato a dizer que vinha para Lisboa. O comandante teve de me ir buscar ao mato.

Também dei aulas e levei 23 soldados a exame da quarta classe. Os soldados que não tivessem a 3º classe faziam mais uma comissão na guerra colonial, daí que muita gente quisesse estudar e passar nos exames.

Penso que fez teatro, representando na sua companhia militar…

Representei na minha unidade e noutras companhias, muitas vezes em pleno mato. Também tive um conjunto musical.

E alguma vez foi ferido?

Ferimento nunca tive a não ser na alma.

Sei que viveu o Maio de 68 em Paris…

Assisti às manifestações, a minha irmã vivia em França, casou com um francês, estava na Sorbonne. Quando regresso, volto ao teatro para trabalhar na Companhia de Vasco Morgado e Laura Alves. Fomos representar em Angola e Moçambique durante um ano, com actores como o Rui de Carvalho e o Canto e Castro.

E quando é que surge a oportunidade de ir trabalhar com Peter Brooke, o director teatral britânico de renome mundial?     

Estava no Teatro Monumental a fazer uma peça com a Milu quando a Fundação Calouste Gulbenkian me convida para fazer testes e trabalhar com o Peter Brook.   Candidataram-se 70 actores e ele escolheu-me a mim…. O Vasco Morgado dizia que eu era maluco em ir-me embora mas o Armando Cortês aconselhou-me a ir, “estás numa idade de aprendizagens” disse-me . Fizemos várias digressões pelo mundo, em França, no Irão. A imperatriz Farah Diba, mulher do xá Reza Pahlevi assistiu ao espectáculo e depois fomos recebidos no palácio.

Foi um tempo muito rico. Trabalhámos em grego clássico, em linguagem inventada, onde o som, a musicalidade de uma língua são importantíssimos. Em 1971 regressei a Portugal e um ano depois nasceu a Comuna.

Como foi o processo do nascimento do Teatro da Comuna?

O Teatro da Comuna nasceu com um  programa de rádio em que perguntámos aos ouvintes para escolherem o nome de uma futura companhia de teatro. Havia a opção de três nomes, comediantes, cómicos ou comuna. Fiquei bastante contente com a escolha do nome por causa do Teatro da Comuna de Paris, do Teatro da Comuna de Aubervilliers, que me eram muito familiares.

 A fundação da Comuna em 1 de Maio de 1972, Dia do Trabalhador, foi uma provocação ao regime?

Foi intencional ser no Dia do Trabalhador, foi uma mensagem política.

E qual foi a vossa  primeira casa, antes de virem para a Praça de Espanha?

Começamos numa garagem que era do Vasco Morgado em frente ao Liceu Camões. Mas depois não tivemos dinheiro para a renda e o Manuel Vinhas, um grande empresário, que poucos sabem que era licenciado em filosofia, cedeu-nos um barracão na Cervejaria Portugália.

Como foi o 25 de Abril na Comuna?

Saímos do teatro à meia noite, íamos para casa, eu, o Carlos Paulo, a Manuela de Freitas e um amigo que tinha automóvel. Quando passamos por São Sebastião vimos soldados e achámos muito estranho, fomos depois ao Rádio Clube Português e também havia tropas, por último passamos em Belém , na casa do Américo Tomás e também vimos tropas. Não sabíamos ainda que tipo de golpe era, podia ser de direita, do Kaúlza de Arriaga. Quando ouvimos um comunicado na rádio para irmos para casa, não fomos, fomos para o Largo do Carmo, depois estivemos em Caxias, na libertação dos presos políticos,  Andámos sempre  os três por todo o lado. Estive três dias sem ir a casa, sem praticamente ir à á cama. Depois veio o 1º de maio, que foi um dia catártico.

Em 1975, em pleno Processo Revolucionário em Curso, o PREC,  ocuparam as instalações na Praça de Espanha onde ainda hoje o Teatro da Comuna se mantém…   

Em 1975 ocupámos este espaço, onde tinha funcionado o Colégio Alemão. Tínhamos acabado de representar na Cervejaria Trindade e no final dissemos ao público que íamos ocupar uma casa para instalar o teatro, quem quiser que viesse. A RTP também lá estava a gravar o espectáculo. Acabámos por ir todos, uns de autocarro e metropolitano, outros de automóvel. A RTP também foi e gravou a ocupação. Está aí o filme em arquivo.

No PREC fomos ameaçados de bombas, os motoristas de táxi deixavam-nos na parte de baixo da Praça de Espanha, recusavam-se a vir aqui acima porque diziam que eramos comunas. Ora eu até nunca fui comunista, há ditaduras de direita e de esquerda, como foi a do Estaline que eu odeio.

A Comuna participou nas campanhas de dinamização do MFA. Como foi a experiência?  

As campanhas de dinamização foram muito importantes. Antes do 25 de Abril estávamos proibidos de representar fora de Lisboa e andar pela província foi uma grande oportunidade. Por exemplo, na peça de teatro a “Ceia” a crítica em Lisboa disse que era um pouco hermética mas na província adoraram-na, falava-se da Igreja, da Pide. No fim do espectáculo havia diálogos cgom os espectadores, muitos deles analfabetos mas com uma riqueza interior muito grande. Falava-se abertamente sobre tudo. Foi uma aprendizagem muito forte.

Na sua longa carreira teatral, viajou por muitos países. Apercebeu-se de hábitos de sono ou comportamentos de higiene do sono muito diferentes?

Lembro-me que na parte campesina da América Latina, em países onde trabalhei, como na Guatemala e em São Salvador, os camponeses se deitavam e levantavam muito cedo, quando o sol se punha e nascia.

Nessas viagens dos anos 1970, em pleno período das ditadutas militares latino-americanas há algum momento que recorde? 

Houve momentos terríveis. Em São Salvador representamos com muitos polícias na sala. Noutra exibição, na Guatemala, um civil importante ligado ao regime veio dizer-me que tinha gostado da peça mas que não pagava para ser insultado. Lembro-me que era uma peça que se chamava “O Fogo” e tinha trechos de Che Guevara. Depois quiseram mandar-nos de autocarro pelos Andes mas fomos alertados por um amigo para só aceitarmos sair de avião porque era muito fácil a camioneta ir por uma ribanceira abaixo e matarem-nos.

Que peças destacaria, encenadas ou representadas por si, onde o sono ou o sonho tivessem grande relevância no enredo?   

Encenei “A vida é um sonho”, de Caldéron de la Barca, que é uma peça verdadeiramente espantosa, onde se questiona se nós estamos a sonhar ou estamos a viver. Eu vejo o sonho como uma verdadeira viagem. Também ensaiei “Dois Reis e o Sono”, peça da Natália Correia, onde um rei dorme de mais e outro de menos.

A juventude interessa-se pelo teatro?

A juventude gosta muito de teatro, a primeira aprendizagem na vida deve ser artística, como dizia Leonardo Coimbra, ministro da Instrução na I República, coisa que ainda hoje não é.

Portugal tem uma política cultural?

Nunca houve política cultural, para existir tinha de haver uma ligação entre a educação e a cultura, de modo a que não fosse apenas importante os nossos alunos saírem com um canudo. Hoje esse canudo representa conhecimento? Geralmente não.  Como já  disse a primeira aprendizagem na vida deve ser artística, ligada ao teatro, à dança, à escrita.  Mas não é isso que acontece. Qualquer dia só fazemos teatro e cinema para os velhos.

Isto não implica que não tenha de haver sentido de responsabilidade, a responsabilidade de estar vivo, de haver regras porque o excesso de tolerância é a pior arma que há, aliada a uma alegria criativa de viver. As artes podem ajudar a estar bem consigo próprio.

A responsabilidade também tem a ver com a disciplina de trabalho. Nós estamos numa monotonia muito grande. Por exemplo nas colónias trabalhava-se. Os retornados que vieram em 1975 tinham uma disciplina de trabalho que nós não tínhamos. E continuaram a trabalhar quando vieram para Portugal, viviam como podiam, montaram negócios, criaram empresas.

Nós aqui sempre estivemos muito habituados ao emprego. Mas emprego não é trabalho.

Porque é que o sono é tao retratado na literatura?

Porque sem dormirmos não há amanhã. Mesmo quando se dorme pouco há um grande cansaço. Houve uma altura da minha vida em que dormi quatro horas, andava esgotado-

Há muitas pessoas que desvalorizam o sono, uns bebem sete cafés e misturam uma aspirina, outros bebem um litro de Coca-cola, outros consomem drogas, tenho muitos amigos que consomem cocaína para se manterem acordados.

Há algum quadro que represente o sono ou o sonho que destaque?   

Muitos quadros fazem-me lembrar sonhos, do Bosch do Magritte…

O que pensa da expressão Deus não dorme?

Deus não dorme e muitas vezes finge que não vê, nas guerras, nas calamidades, nas tragédias do mundo. Criou-nos livres ou estamos condenados como Prometeu.

Já houve alturas em que sentiu que o sono foi bom conselheiro? Em que medida o ajudou?

O sono foi sempre bom conselheiro. Resolvo muitas coisas na minha vida à noite, a dormir, até no que se refere às peças de teatro. Penso como é que vou sair desta, como é que vou resolver isto, durmo e no dia seguinte sai tudo limpo, há uma limpidez em que sei o percurso todo. É como se guardasse as peças debaixo do travesseiro. Isto quando me acontecem esses dias. Também tenho pesadelos, sobretudo com coisas da guerra, isto vai ficar para toda a vida. Mas no meu caso é só de vez em quando. Tenho colegas que estão mesmo doentes.

Tem insónias? Quais são os seus hábitos de sono?  

Só muito de vez em quando tenho insónias. Tive muitas quando vim da guerra. Nos hábitos de sono, tenho horários certos. Levanto-me às oito da manhã. Durante 32 anos dei aulas e levantava-me cedo. Muitas vezes ensaiei até as três da manha e levantava-me as oito.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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