“Durmo a noite em dois sonos de pedra”

Antigamente as pessoas dormiam dois sonos e foi já no século XX, como consequência dos novos hábitos criados pela Revolução Industrial e a necessidade de uma nova organização do trabalho para a produção em massa que o sono se foi tornando monofásico, como ensina a Prof. Teresa Paiva. Mas muitos que nasceram no século XIX ainda mantêm os velhos hábitos…. Como o ex-Presidente da República, Manuel Teixeira Gomes. José Alberto Quaresma, na biografia que fez sobre o presidente que renunciou ao cargo em 1925, (edição INCM) recorda este testemunho de Teixeira Gomes:

“Saí de Portugal sem um livro, sem um papel, sem um apontamento ou nota; nada que de longe ou de perto recordasse o antigo literato ou o político: abri na vida uma página perfeitamente em branco. Pouco ou nada leio, como e bebo com apetite e proveito; durmo a noite em dois sonos de pedra, faço todas as manhãs uma hora de ginástica e à tarde dou um passeio regulamentar de dez minutos quilómetros; os museus, as igrejas, os monumentos, abrem-se-me como outras tantas portas para o paraíso; o espectáculo das ruas nunca me embasbacou e surpreendeu tanto como agora; olho para o céu, para o mar, para as montanhas, para a paisagem, com a encantada curiosidade de um ressuscitado; e escrevo a alguns amigos com a abundância – a incontinência – que sabe. O que lhes digo é leve e inconsistente, como é a minha bagagem literária. Vou consumindo, à semelhança de certos animais que hibernam, a própria enxúndia, adquirida com o magro chorume das leituras passadas, e repito, invariavelmente, ao fim de cada dia: ‘este já ninguém mo tira’”

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