“A greve self-service dos médicos tirou-me o sono”

A ex-ministra da Saúde, Maria de Belém Roseira, candidata às presidenciais de 2016, confessa ao iSleep que a chamada greve self-service dos médicos, em 1999, sem data nem hora marcada “lhe tirou mesmo o sono”.

Como foram os meses como jurista no gabinete da então secretária de Estado da Segurança Social Maria de Lurdes Pintasilgo, depois ministra dos Assuntos Sociais, nos primeiros Governos Provisórios, logo a seguir ao 25 de Abril de 1974? Dormia-se menos em virtude da novidade e do frenesim político?

Foram meses de intenso trabalho e de ainda maior entusiasmo. A galvanização dessa época, em que todos nos sentíamos com uma energia transformadora inesgotável, levava-nos a trabalhar horas sem fim, pela noite dentro, sem qualquer sinal de cansaço. Dormíamos menos, muito pouco mesmo, mas levantávamo-nos de manhã com força e vontade de abraçar mais um longo dia de trabalho.

E depois em 1975? Há fotografias de políticos da altura a fazerem intervalos de sono no meio de reuniões… Há alguma história curiosa que recorde?

As fotografias dessa época são documentos históricos interessantíssimos. Não me lembro de nenhuma história passada directamente comigo mas conservo a memória das imagens da televisão reportando os infindáveis debates na Assembleia da República e a inevitável passagem pelo sono de alguns deputados, não directamente envolvidos nos debates…

A Maria de Belém dedicou vários anos à administração do Instituto Português de Oncologia? As insónias surgem muitas vezes como resultado de doenças graves que desestruturam as pessoas. Lidou muito com essas situações?     

É verdade. Lidei com autênticas histórias de horror, algumas delas arrepiantes. Verdadeiras tragédias pessoais e familiares que desestruturam qualquer vida e em que o tempo para dormir e, sobretudo, o tempo para sonhar, perdem qualquer sentido, sobretudo em termos do ritmo que costumamos considerar normal. Fica tudo transtornado e sem controle! É inevitável.

E depois como vice-provedora na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, a pobreza e a falta de assistência quase tornam indiferente o sono, quer o dormir de menos, quer o dormir de mais… Sentiu isso?    

Evidentemente. Quer o IPO de Lisboa, quer a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, foram instituições onde aprendi a verdadeira escala das prioridades. Há vidas tão sofridas que seria muito difícil imaginá-las. Confrontarmo-nos com elas, interpela-nos e faz-nos encontrar um outro sentido para as nossas próprias vidas. É impossível fugir desse sentimento. Pelo menos, foi assim comigo.

Como ministra da Saúde do engenheiro António Guterres houve algum período mais conturbado que lhe tenha tirado o sono?

Sim. A montanha de problemas com que nos confrontamos e a insuficiência de meios para lhes fazer face é muito angustiante. Mas o que mais dói é aquilo que é mau e que escusava de acontecer. Refiro-me, por exemplo, à greve self-service dos médicos, que a Procuradoria Geral da República veio a considerar ilegal e que foi de tal forma ofensiva dos princípios da ética médica que beliscou a, até então, considerada irreversível capacidade de auto-regulação em termos de deontologia profissional. Foi feio, prejudicou objectivamente muitos doentes e abalou o prestígio da classe médica. Tirou-me, mesmo, o sono!

Lembra-se de algum Conselho de Ministros onde o sono quase vencia os ministros?

Lembro-me de Ministros com “jet-lag” e, portanto, com algum cansaço e olhos a fecharem-se, inadvertidamente. Mas como podiam fazer-se substituir pelos Secretários de Estado penso que nas situações de maior cansaço não iam às reuniões do Conselho de Ministros, portanto, nunca me confrontei com qualquer episódio de queda da cabeça em cima da mesa…..

Para tirar o sono é pior a pasta da Saúde, da Educação ou das Finanças?    

Qualquer dessas pastas é complexa e pesada mas a da Saúde nunca encerra. Trabalha todos os dias do ano 24 horas por dia. A sua complexidade não é apenas política mas também técnica e cientifica e permanentemente exposta a imponderáveis de risco que têm um impacto salvífico ou dramático na vida concreta das pessoas. Agora, tudo depende da forma como estamos nessas pastas e dos colaboradores que temos. Eu posso gabar-me de ter tido uma equipa excepcional a trabalhar comigo, não escolhida por critérios político-partidários e antes em função de estarem de cabeça e coração com a política de saúde definida. Quem tem esse privilégio, perde pouco tempo com “tricas” e problemas menores e pode dedicar-se a fazer aquilo que é necessário. Agora, a intensidade e a complexidade das questões a resolver tira o sono a qualquer um. Mas vale a pena!

Nos anos em que exerceu funções governativas há algum diploma que recorde com a sua participação ou assinatura onde a preocupação com o descanso e o lazer tenham sido marcantes?  

Penso que todos os diplomas relacionados com as carreiras dos profissionais de saúde e as negociações com os sindicatos que as precediam abordavam essa questão, até por causa da segurança. Este é um problema crucial nas profissões de saúde, muitas vezes desvalorizado. Eu tinha experiência na formulação de políticas, obtida desde muito cedo na minha infância profissional e tinha a experiência no terreno de que já falámos, obtida na SCML e no IPO. Isso permitia-me fazer uma abordagem, com conhecimento de causa, que muito me ajudou a adquirir uma enorme sensibilidade à especificidade desse factor e a tornar a decisão muito mais fácil.

E no Parlamento, onde é deputada há muitos anos, já houve debates mais prolongados em que um ou outro deputado foi apanhado com os olhos fechados…

Sim já me aconteceu. Mas isso não tem tanto a ver com a duração dos debates, que hoje são enquadrados por grelhas de tempos muito mais razoáveis, mas antes com a circunstância concreta de cada Deputado, que pode ter que vir para o plenário em condições de enorme cansaço ou exaustão.

Sente que os seus colegas deputados estão cientes da importância do sono para um equilíbrio saudável, cumprindo regras de higiene do sono?

Como em todos os grupos grandes e diversificados uns estarão e outros não. Penso que os Deputados mais novos terão uma resistência diferente e uma priorização também diferente do tempo a consagrar ao sono. E os mais velhos, porventura, terão já uma diferente necessidade de dormir, mas também um respeito maior pelo sono indispensável. Agora disciplina de sono, neste grupo e nesta actividade, é difícil de conseguir!

Sabemos que lê muito. Que livro escolheria para uma citação sobre o sono? E qual a passagem?  

Macbeth de Shakespeare. Escolheria as passagens sobre a tragédia e o remorso através do sonambulismo e do pesadelo. Sono, como espelho da alma, e de como a vida deve ser vivida para prevenir as várias formas de punição que nos estão reservadas.

E qual o seu quadro preferido que retracte o sono?

Para mim, Dali é incontornável. O pintor do sono, sobretudo do sonho e da sua irrealidade, com uma transparência deslumbrante.

Penso que é profundamente cristã. O que pensa da expressão Deus não dorme? 

Antero de Quental dizia que Cristianismo é sentimento e Igreja organização. Nesse sentido sou profundamente Cristã e questiono-me permanentemente, pois Cristianismo é um projecto de vida colectivo. Claro que na minha concepção Deus não pode mesmo dormir!

Dormir sobre o assunto é muito útil? 

Sim, para mim é! E agora os novos conhecimentos da ciência relativos às diferentes fases do sono parecem confirmá-lo. O sono “deixa” assentar e impede ou trava impulsos irreflectidos que podem deitar tudo a perder…..

Tem preocupações ao nível da higiene do sono, como horários regulares de deitar e levantar, não beber café etc.  

Sim, tenho preocupações mas nem sempre consigo respeitá-las. A vida de deputada e de membro de um partido político confronta-se com muitas reuniões à noite, frequentemente marcadas de véspera ou no próprio dia. E assim é impossível programar, sobretudo o sono….

Acontece-lhe acordar a meio da noite com uma ideia? Costuma registá-la?

Sim, quando estou preocupada com alguma coisa e acordo a meio da noite com essa preocupação presente. Reconheço que esse tempo é muito inspirador e, quando consigo levantar-me para registar, isso ajuda muito no dia seguinte.

Tem alguma história pessoal curiosa relacionada com o sono?

Na Queima das Fitas, em Coimbra, quando andava na Faculdade, fui do Baile de Gala directamente para uma aula de Economia e o Assistente da Cadeira também tinha lá estado no baile mas tinha-se retirado cedo. Eu devo ter adormecido por segundos – apesar do enorme desconforto das cadeiras do anfiteatro onde decorria a aula – e sonhei que ele me dizia o seguinte: “Então a Senhora foi para o baile toda a noite e agora vem para aqui dormir?” Despertei de imediato e senti-me tão incomodada com esta interpelação que consegui não adormecer novamente até ao fim da aula….

Pode contar-nos um sonho ou pesadelo profundamente fantasioso que tenha tido?

Sinceramente não me lembro… Acontece só me lembrar dos sonhos quando acordo mas depois esqueço-me logo… não sei se é normal ou não.

A Maria de Belém tem tido um importante papel na defesa da igualdade das mulheres. Desde Maria de Lurdes Pintasilgo que Portugal não tem uma mulher primeira-ministra…

É verdade. A vida politica, tal como é feita em Portugal, não deve ser muito interpelante para a maioria das mulheres e será difícil quebrar o cerco de masculinidade que a caracteriza.

Portugal nunca teve uma mulher como Presidente da República. Vê alguém no horizonte? A Dra. Maria de Belém tem um longo percurso de actividade pública, como governante e deputada e é uma pessoa habituada a gerar consensos em torno de ideias estimulantes…  

Essa é uma questão ainda longe da agenda, por muito que pretendam introduzi-la já. As legislativas são o próximo marco e muito importante. Temos, em meu entender, que mudar de política. A que tem sido levada a cabo pelo actual Governo, no seu afã marcadamente ideológico de aproveitamento do programa de resgate para desmantelar o Estado Social e privatizar todos os activos nacionais, tem que ser travada e revertida nos seus aspectos mais penalizadores. Os portugueses em situações de maior fragilidade têm sido tratados como meros danos colaterais, como tal, irrelevantes. Sinto-me a viver uma nova época de predominância da “banalidade do mal” em que funcionários cumpridores e acríticos cumprem disciplinadamente os ditames de uma economia sem ética que pretende converter tudo e todos em amorfos, abúlicos e invertebrados ao seu serviço. E isto não é aceitável… A minha luta é contrariar este estado de coisas e o conformismo.

 

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