“Há estudos que associam poucas horas de sono ao envelhecimento celular”

Raquel Seruca

Raquel Seruca, vice-presidente do Ipatimup, especialista na investigação do cancro do estômago, defende a importância da genética no estudo do sono, lembrando estudos em que a diminuição do número de horas de sono levou ao aumento do desgaste das zonas terminais dos cromossomas e mesmo ao aumento de lesões do DNA em vários tecidos como os pulmões e o cólon.

 Há hoje certezas que os genes influenciam o sono. É uma importante descoberta…

Há algumas doenças genéticas com perturbações de sono graves, caso do síndrome de Angelman. Neste quadro há uma hiperactividade generalizada, com atraso mental associado e estas crianças não conseguem dormir. São situações com um impacto não só nos indivíduos afectados mas também na dinâmica familiar com efeitos catastróficos. Falo neste caso particular porque já se conhece o gene responsável e a doença é monogénica (causada apenas por um evento genético único).

A Professora Raquel Seruca é uma investigadora no campo molecular, sobretudo ligada à investigação do cancro do estômago. Penso que os mecanismos moleculares no sono são pouco conhecidos…

Tal como no cancro do estômago, que são várias doenças com base molecular variada penso que o sono também é um termo geral que terá como base vários perfis moleculares complexos com diversos aspectos clínicos associados. Se encontramos associações significativas entre perfis moleculares específicos e aspectos de sono distintos a genética poderá estratificar melhor os doentes e as terapêuticas a utilizar.

Ainda que não seja uma especialista do sono, a sensibilidade científica diz-lhe que a insónia tem um predomínio mais biológico ou social?   

Os dois. A insónia será uma doença complexa a abordar de acordo com a susceptibilidade genética e ambiente como todas as doenças complexas, caso das doenças cardiovasculares ou o cancro. Em casos extremos poderá ser uma doença genética pura mas nesse caso a análise clínica de famílias poderá ser o ponto de partida para a investigação.

O DNA das moscas tsé-tsé foi decifrado há poucos meses. Que efeitos terá no combate à doença do sono?

É interessante e nesses casos extremos o gene poderá ser o mesmo e por isso a análise do gene da mosca pode dar boas dicas para descobrir o humano.

Há teorias que defendem que os seres humanos por dormirem tiveram vantagens adaptativas ao longo da evolução, quer porque poupavam energias, quer porque corriam menos riscos de acidentes…

É uma teoria lindíssima como modelo mas não tenho a certeza que alguém já tenha modelado este conceito em termos evolutivos.

O mundo moderno faz com que muitas pessoas durmam cada vez menos. Estamos a desafiar perigosamente o nosso relógio biológico?

Estamos certamente a desafiar o nosso estado de humor e a boa convivência. No plano científico a questão é saber se a diminuição do número de horas de sono tem algum efeito em sinais biológicos de envelhecimento. Há estudos recentes que indicam uma associação entre a falta de sono e sinais claros de envelhecimento celular, o que pode constituir um enorme avanço científico. Na verdade verificou-se  que a diminuição do número de horas de sono leva ao aumento do desgaste das zonas terminais dos cromossomas chamadas telómeros, aumentando também o número de lesões do DNA em vários tecidos como os pulmões e o cólon.

Nos anos 1980, quando fez o curso de medicina havia alguma sensibilização para os comportamentos de higiene do sono?

Desde pequena que ouvi.. “deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer”. Na minha casa este ditado ditava as leis do sono. Deitei-me sempre cedo e levantei-me sempre cedo. Eu digo que a partir da meia-noite viro abóbora. Os estudantes de medicina não faziam grandes borgas pela noite fora que eu me lembre.

Sei que antes de se dedicar à investigação, fez o internato como médica no Hospital de S. João, no Porto. Como foi a experiência?

Gostei muito mas sofria bastante com os aspectos sociais ligados à doença e à miséria a que assistia diariamente. Se tivesse continuado na medicina gostaria de ter sido médica de situações de urgência ou então da grande psiquiatria.

O que a levou a dedicar-se à investigação? 

A curiosidade e a aventura e a excitação de trabalhar em coisas que nada se sabe.

Viveu na Holanda alguns anos, trabalhando como investigadora. Como foi a experiência?

Trabalhei no departamento de genética da Universidade de Groningen. Gostei muito porque foi lá que dei os primeiros passos como investigadora e aprendi as primeiras “letras” da genética laboratorial. Foi excitante.

Os hábitos de sono dos holandeses são muitos diferentes dos portugueses?

São muito diferentes, as crianças deitam-se muito cedo tal como os adultos e levantam-se também mais cedo. Dormem de janelas abertas porque seguem mais os ciclos de luz. Também comem muito mais cedo. Mas não sei se são mais saudáveis. Na Holanda é uma queixa comum estar stressado.

É investigadora no Ipatimup há 26 anos, instituto onde também desempenha as funções de vice-presidente. Tem sido certamente um trabalho muito gratificante…

Adoro trabalhar no Ipatimup. É uma instituição dinâmica, criativa, competitiva e solidária. É uma instituição modelo acho.

O Ipatimup é uma das nossas instituições científicas mais prestigiadas, no país e no estrangeiro. Qual tem sido o segredo?  

Uma boa gestão e uma grande liderança com gente muito empenhada num projecto comum mais do que vários projectos individuais.

Ganhou em 2014 o Prémio Femina por Mérito na Ciência. As mulheres são cada vez melhor sucedidas no domínio da investigação científica…

Mas isso não depende de serem mulheres. Eu não aceito com facilidade essa consideração privilegiada pelo género. As pessoas que são criativas, trabalhadoras e cumpridoras são bem sucedidas, independentemente do género.

Foi membro do Conselho Nacional de Ética. Com que tipo de questões deparou? Porque renunciou ao lugar em 2013?

Trabalhei na questão da investigação de células estaminais e embrionárias que nunca viu a luz do dia, no testamento vital e na “barriga de aluguer”, bem como na racionalização dos gastos na saúde. Saí porque tive algumas divergências de opinião sobre os métodos a seguir na análise de alguns assuntos que estavam a ser abordados na altura. Fui substituída por uma pessoa muitíssimo competente, o Professor João Ramalho Santos que é um excelente cientista.

Adormece facilmente?

Caio para o lado literalmente.

Quantas horas dorme por noite?

Depende dos dias mas à volta de 7 horas. Às vezes tenho muito sono depois de almoço e chego a dormir 10-15 minutos para conseguir continuar. Dizem que eu às vezes estou a dormir com os olhos abertos.

Já alguma vez teve uma insónia? Contou carneiros? Ou ninguém conta carneiros? 

Tive imensas vezes insónias e não conto carneiros, levanto-me e faço qualquer coisa para me entreter.

Acontece-lhe acordar a meio da noite ou já de manhã com uma ideia relacionada com o trabalho científico? Costuma registá-la?

Sim e às vezes registo. Outra vezes fica apenas na cabeça e quando chego ao IPATIMUP partilho e ouço sempre o mesmo comentário. Olha, ela hoje andou a sonhar.

Lembra-se de algum momento da sua vida em que o sono tenha sido bom conselheiro? Em que medida a ajudou?

Eu sou muito efusiva e normalmente partilho as minhas aflições mas dormir sobre o assunto é muito positivo. Já muitas vezes o sono  refreou as minhas impulsões primárias.

A literatura está cheia de referências ao sono, às perturbações do sono, aos sonhos…. Como as interpreta? 

Quando são bem escritas tiro prazer de as ler apenas

Freud disse que “O sonho é o fiel guardião da nossa saúde psíquica, da nossa alegria de viver, uma vez que a vida não passa de uma contínua procura do prazer, contrariada pela realidade”…

Eu acho que dormir bem assegura um acordar bem disposto. Eu sou muito bem disposta ao acordar normalmente.

Há alguma história pessoal divertida de que se lembre relacionada com o sono?

Diverti-me bastante quando fui dormir ao laboratório da Professora. Teresa Paiva agarrada a máquinas e cheia de fios, foi uma experiência e peras.

Pode contar-nos um sonho ou pesadelo  fantasioso que tenha  tido?Ui, não sei. Nunca sonhei ser rainha nem gata borralheira nem mesmo ser alguém muito diferente do que sou.

 

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