“Há poucas coisas que me perturbam mas não dormir bem é uma delas”

Katia Guerreiro

FOTO: CARLOS RAMOS

 

Katia Guerreiro, fadista e médica procura dormir oito horas por noite e diz que nas vésperas de um concerto tenta ter um sono mais longo.  Tem, porém, perfeita consciência que em Portugal não se dorme muito. “O nosso sangue latino faz-nos querer que o dia não acabe” diz.

Na noite anterior a um espectáculo tem preocupações especiais com o dormir?

Tenho particular cuidado em descansar bem, e com o que janto para que o sono seja sereno. É para mim muito importante, no meu quotidiano, dormir cerca de 8 horas, mas nem sempre é possível, pois tenho uma filha pequena que por vezes me interrompe o sono. Isso faz-me muita diferença. Daí, precisar de me restabelecer na véspera de um concerto com um sono mais longo.

Tem sido fácil a adaptação a tournées em países distantes, por exemplo na Ásia, em virtude do jet lag?

Tento ajustar-me ao fuso horário, começando logo a fazer tudo como fazem os locais nesses países para minimizar os efeitos do jet lag, mas não há milagres nem técnicas infalíveis. É exactamente por isso que tento chegar um ou dois dias antes para me adaptar. Mesmo em viagens mais curtas com diferenças horárias mais pequenas faz-me diferença ter de acordar uma hora mais cedo, comer mais cedo… Há todo um ajuste físico e mental a fazer.

Tem visitado muitos países, em vários continentes. Apercebe-se de diferentes hábitos ou comportamentos de higiene de sono em relação aos portugueses?

Sim, sem dúvida. Nos países do norte da Europa, julgo que em virtude do pouco tempo de sol que têm no Inverno, o hábito é começar o dia de madrugada e sair cedo dos empregos, o que obrigará a uma disciplina maior, mas não garanto que durmam mais do que nós. Creio que o nosso sangue latino nos faz querer que o dia não acabe e dormimos pouco.

Como eram os seus hábitos de sono na adolescência? Penso que viveu numa residência universitária. Como foi a experiência no que se refere ao sono?   

Sempre foi regra lá em casa que o meu irmão e eu dormíssemos as horas indicadas para uma criança dormir. Naturalmente, ao fim‑de‑semana ficávamos acordados até mais tarde mas acordávamos igualmente mais tarde. Na residência universitária onde vivi, ainda que por apenas alguns meses, tinha de partilhar o quarto com mais duas estudantes e tínhamos horários muito diferentes. Eu era a última a acordar porque o meu horário na faculdade era à tarde. Acontece que sempre gostei de estudar pela noite dentro, e acordar duas vezes com despertadores que não eram meus, fez-me querer sair de lá depressa. Há poucas coisas que me perturbam mas não dormir bem é uma delas.

Durante o curso de medicina houve cadeiras onde a importância de um sono saudável tenha sido destacada?

Não me lembro de ter sido alguma vez abordado o assunto…

Os médicos de outras especialidades devem ser sensibilizados para os problemas do sono, designadamente entre os oftalmologistas, como a Katia Guerreiro?

Tenho de esclarecer que não sou especialista em oftalmologia, apesar de ter trabalhado na área durante vários anos.
Acho que as perturbações do sono deviam ser alvo de foco em várias especialidades. As repercussões que o sono tem na nossa saúde e na nossa qualidade de vida deviam ser mais vistos como um assunto de saúde pública.

Já teve insónias? É mais “coruja” ou “cotovia”?

Já sofri de insónias pontuais, como talvez a maioria das pessoas, mas houve um período mais prolongado em que me apercebi que o meu sono não estava saudável, ou porque o sono era muito “leve”, ou porque me custava muito a adormecer, ou porque acordava mais cedo, e aí decidi mudar as minhas rotinas diárias, que estavam muito focadas em questões intelectuais, para me dedicar a alguns prazeres relaxantes como cozinhar para amigos, dar passeios para apanhar mais sol, e cantar!! Já fui muito coruja, agora não.

A literatura e poesia têm muitas referências ao sonho.  É um mistério sempre retratado…

O sonho é de facto um mistério, como são as coisas do coração, as emoções, os sentimentos que se relacionam tantas vezes. Há, aliás, nas diversas formas de arte, muitas referências ao sonho. Lembremos-nos, por exemplo do famoso quadro “O Sonho de Charles Dickens”. A principal função da arte é despertar emoções, sem emoções não há sonhos, nem o contrário. Diz bem que é um mistério, e talvez por ser um fenómeno tão emocional, seja tantas vezes objecto da escrita, da pintura, e até da música.

Tem alguma história pessoal ou profissional divertida com o sono ou a falta dele?
Tenho uma história da minha infância. Era muito miúda e os meus pais decidiram mandar pintar as paredes do meu quarto. Nessa noite, tive de dormir na sala. Ora, muitas vezes a meio da noite levantava-me para ir ao WC, mas acho que ligava o piloto automático, de tal forma, que nessa noite a minha mãe ouve-me abrir a porta da rua, sair e voltar a entrar. Na verdade virei-me para o mesmo lado como se estivesse a sair da porta do meu quarto.

 

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