“A História também não adormece, tudo se vê”  

 

Jorge Silva Melo, encenador, cineasta e dramaturgo dá uma entrevista ao iSleep onde fala do sono e dos sonhos em diferentes matizes.    

Em 1968 foi preso pela PIDE três semanas. Como dormiu na prisão?  

Calmo, éramos muitos na cela, onze rapazes. Ríamos e contávamos histórias até tarde. Discutíamos filmes, como o “Bonnie and Clyde”…

Como foi o seu dia 25 de Abril de 1974? Foi uma noite sem sono?

Vim da “Traviata”, no Coliseu, dormi em casa dos meus pais. O meu pai estava doente. Cheguei tarde e a minha irmã acordou-me cedo. Acho que não dormi pouco. Nas noites a seguir é que sim, deitava-me tardíssimo com o pequeno transistor encarnado ao lado e acordava hora a hora, talvez entre as três e as sete da manhã para ouvir as notícias.

Na sua  carreira teatral e de cinema, viajou por diversos países. Apercebeu-se de hábitos de sono ou comportamentos de higiene do sono muito diferentes dos portugueses?

Apenas em França, no meio dos intelectuais e artistas que conheci bem. Deitavam-se muito tarde, estavam a pé muito cedo, nunca percebi quando dormiam. Mas partilhei poucas noites…

Em alguma peça encenada ou representada por si o sono ou o sonho tinha importância fundamental ?    

As duas mulheres na vida do protagonista de “O Rio”, de Jez Butterworth, uma ex-mulher, outra que agora ele corteja, são fruto de uma divagação onírica. Ele fala com uma e continua a conversa com a outra, retoma fios à meada na lógica ininterrupta dos sonhos. Mas os sonhos são rápidos e a peça é lenta. Interrogo-me se estaríamos sempre naquela confusa vigília mesmo antes de adormecer. Foi um dos trabalhos que mais gostei de fazer.

O que pensa da expressão “Deus não dorme”?

Gosto. Nem a História adormece, tudo se vê.

E da expressão “é para o lado que eu durmo melhor”?

Não gosto, é vulgar, um pouco desprezível.

A literatura está repleta de referências ao sono e ao sonho. É um mistério que os escritores gostam de retractar…

Claro, a lógica  misteriosa do agenciamento dos acontecimentos é tão atraente, tão vertiginosa. E permite fugir ao relato simples dos eventos, permite “sonhar”.

Que parte de um livro escolheria que retracte o sono ou o sonho?

Toda uma peça, e é longa e complexa, o “Sonho de Uma Noite de Verão” de Shakespeare, onde erotismo, desejo, poder, riso, a vida, se vão unindo para um dos mais belos momentos de sempre. Ou, deste século já, “Sonho de Outono”, essa peça de Jon Fosse que é como os “Morangos Silvestres” (ah, os sonhos em Bergman e em Hitchcock!), tempo passado e tempo futuro cruzando-se, entrecruzando-se, interpelando-se numa das noites brancas lá do Norte.

São vários os líderes políticos europeus que afirmam dormir pouco. Preocupa-o, do ponto de vista da tomada de decisões?

Não, mas não entendo porque o dizem. Cheira-me a propaganda para dizer que são melhores do que nós, os dorminhocos.

Tem hábitos de higiene do sono, como deitar a horas regulares, não beber café à noite, etc?

Até há poucos anos  bebia café até tarde. Deixei-me disso. Só em casos excepcionais me deito depois das 23 horas. E acordo pelas 6.30, no máximo 7.00. Há uns anos acordava, expedito, pelas 4.30. Mas deixei-me felizmente disso.

Quantas horas dorme por noite? O sono costuma ser reparador?

Umas sete horas. Acordo cheio de vontade de me levantar, contrariamente ao que que me acontecia durante décadas em que tinha acordares lentíssimos.

Costuma ter insónias?

Não, não.

Já houve alturas em que sentiu que o sono foi bom conselheiro? Em que medida o ajudou?

Costumo levar para a cama algumas ideias para resolver na manhã seguinte. Se as decisões que tomo foram boas, não sei. Mas, por exemplo,  é raro responder a convites, emails e essas coisas à noite, mesmo que os tenha lido… Deixo para pensar ou repousar…

Pode contar-nos um sonho fantasioso que tenha tido?

Poucos sonhos, alguns pesadelos, sobretudo com “os meus mortos”.

 

 

 

 

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