“Horas de sono encurtadas levam ao aumento do apetite”

Isabel do Carmo

Isabel do Carmo, professora da Faculdade de Medicina de Lisboa, médica endocrinologista, uma das maiores especialistas portuguesas em obesidade e comportamento alimentar refere que há pessoas com insónias que só conseguem voltar a dormir após comerem, o chamado “síndrome de comer à noite”, e que quase todos os grandes obesos têm apneia do sono. Hidratos de carbono complexos, vegetais e frutas são os melhores alimentos para um sono saudável diz. Figura multifacetada, com um passado político  intenso, antes e depois do 25 de Abril, Isabel do Carmo fala ainda dos problemas do sono de quando foi presa política.  

  

Na sua prática clínica tem muitos doentes com problemas de alimentação que são consequência directa de insónias e outras perturbações do sono? 

 Vejo muitas pessoas cuja vida quotidiana não lhes permite ter horas de sono suficientes. Em muitos locais de trabalho acabou-se a jornada de oito horas. Os chefes e patrões chamam a isso “vestir a camisola”… Depois há os transportes, os filhos, fazer o jantar, preparar o dia seguinte. E as horas de sono encurtadas. Isto leva a um aumento de apetite, como se fosse uma espécie de compensação. Aparece sobretudo na “hora do lobo”, ao fim do dia

As crianças que dormem menos também comem mais. Está provado. Há também as pessoas que têm uma insónia a meio da noite, que só passa se forem comer, em inglês chama-se “night eating syndrome” (NES). O conceito foi criado por um grande psicólogo dos Estados Unidos, chamado Stunkard, que faleceu no ano passado.

E o inverso, insónias e perturbações de sono que levam a distúrbios do comportamento alimentar?

 O NES pode ser consequência ou causa de perturbação do sono. Pode haver uma insónia de base associada ao NES. Ou pode haver um problema de compulsão alimentar, diurna ou nocturna, isto é a ingestão durante a noite faz parte de todo um descontrolo do ciclo de apetite e saciedade.

Tem muitos doentes obesos com apneia do sono? A obesidade é um factor cada vez mais determinante para esta patologia?

Quase todos os obesos de grau 2 e sobretudo de grau 3 (índice de Massa Corporal Superior a 40) têm problemas de sono, ressonam (roncopatia) e têm síndroma de apneia ou hipopneia do sono. Acordam cansados, têm sonolência diurna. No entanto, a maior parte tem a percepção que dorme bem de noite e não se queixa de insónias. São os parceiros que se queixam. Como se sabe o mau sono e as apneias nocturnas são um factor de risco cardiovascular e alteram a função cognitiva. Depois de uma grande perda de peso, como no caso da cirurgia bariátrica, ficam mais “inteligentes”…

A boa alimentação é essencial para um sono de maior qualidade? 

A alimentação equilibrada é com certeza um contributo para um sono de qualidade. Mas temos de diferenciar entre a chamada “alimentação saudável” em que se ingerem tantas calorias como as que se gastam e o regime para emagrecer que tem sempre que ser hipocalórico. Este último, se for muito restritivo pode perturbar o sono. Por outro lado, se forem ingeridos alimentos com alto índice glicémico, como doces, pão branco e algumas frutas ao serão, ou ao deitar, quando o pico glicémico cai e o pico de insulina se mantém alto pode fazer fome a meio da noite.

Por sua vez, como se sabe, não se deve fazer uma refeição nas duas horas que precedem o sono.

Quais os melhores alimentos para um sono mais saudável?   

Os alimentos de melhor ingestão, confeccionados com poucas gorduras. Os hidratos de carbono complexos e os vegetais e a fruta são bons. Mas atenção a quem tem colon irritável ou espástico. Neste caso as leguminosas, como o feijão, grão e lentilhas e as verduras com muitas fibras podem causar mal estar intestinal, com “gases”, e perturbar o sono. Ora isso pode não acontecer imediatamente a seguir a serem comidos. Podem ter efeito até 72 horas depois. Nesse caso cada pessoa deve conhecer-se e saber quais os alimentos que lhe “dão volta aos intestinos”.

A Professora Isabel do Carmo é uma figura multifacetada, médica reputada, cidadã interventiva, com um passado político singular e intenso, antes e depois do 25 de Abril. Houve alguma situação em que o cansaço ou o sono ameaçasse uma acção revolucionária e clandestina em que tenha estado envolvida?

Muitas vezes. Em fases de luta clandestina fazem-se “directas” e claro que há cansaço e sono. E um grande esforço para aguentar. Há um livro do Nuno Bragança que se chama “Directa” e que aborda isso. Hoje, empenhada que estou no “Livre/Tempo de Avançar” venho-me embora das reuniões à meia-noite.

Foi presa política antes e depois do 25 de Abril.  O que foi igual e diferente na prisão, antes e depois da revolução? 

Estive em isolamento antes e depois do 25 de Abril. A grande diferença é que depois do 25 de Abril podia receber livros. O isolamento é sempre duro e depois do 25 de Abril tive nove meses de isolamento, de cela fechada, com quinze minutos de recreio por dia. Mas tinha o meu filho comigo e tinha livros, jornais e revistas. Faz toda a diferença. Antes do 25 de Abril tiravam o relógio e não se sabia a que horas do dia se estava. Por outro lado, nem a PIDE nem a Polícia Judiciária me bateram, mas no primeiro caso isso era uma eventualidade presente e no segundo aconteceu com alguns dos meus camaradas.

Como dormia na prisão? Só os primeiros dias são difíceis?

Em Caxias, antes do 25 de Abril tive um problema grave de insónia numa noite, após ter bebido cafés solúveis todo  o dia, porque tinha um frasco de pó e água quente e não tinha mais nada para fazer. Foi uma intoxicação com cafeína. Não tive consciência do que estava a fazer.

De resto dormi razoavelmente, sempre com duas questões. Precisava de ler ao deitar, o que ou era impossível ou não era fácil e precisava de beber café ao acordar, porque senão ficava com síndroma de dependência do café. Quando já estava mais estabilizada na prisão, conseguia fazer café à noite e levá-lo numa garrafa termus  para o pé da cama.

Chegou a fazer greve de fome quando esteve presa. Como foram os seus estados de sono nesta altura?

Fiz 30 dias de greve de fome. Não me lembro de ter perturbação do sono. Mas tinha a tal falta do café, porque, apesar desta bebida não ter valor calórico, nós não a aceitávamos, para não virem depois com essa acusação.

Na prisão, teve sonhos de evasão e liberdade?  

Não me lembro… É incrível, mas não me lembro. Apagou-se.

Como já disse, quando esteve presa teve a companhia de um filho. Este teve dificuldades em dormir? 

O meu filho dormia muito bem. Ter a mãe ao lado é certamente uma grande segurança para uma criança dormir. E todas as noites lhe contava uma história.

Leu muito na prisão? Que livros leu?

Lia muito todos os dias. Não tinha que fazer comida, as tarefas quotidianas de limpeza eram poucas. Quando estávamos em colectivo fazíamos reuniões, ioga, teatro e leituras comentadas. E depois havia muitas horas para ler. Li o “Capital” de Carl Marx, que possivelmente nunca leria na íntegra se estivesse cá fora. Depois comentávamos em conjunto. Li a poesia de Eugénio de Andrade e de Manuel Pina. Li Deleuze. Li Simone de Beauvoir e Sartre. E muitos romances.

Disse numa entrevista que na prisão também houve momentos em que se divertiu. Pode recordá-los?

No grupo éramos seis, todas jovens, a Clara Castilho, a Fernanda Fráguas, a Fernanda Flórido, a Olímpia e a Vitória Lobo Soares. E estávamos numa área onde havia muitas mulheres e algumas eram verdadeiros “cromos”. Havia situações cómicas. Uma vez resolvemos fabricar queijos a partir do leite, não sei como inventámos o coalho e pusemos a coalhar em cima de um armário, onde não se via. Aquilo começou verdadeiramente a cheirar mal. E as guardas acharam que o cheiro vinha das ciganas. Nós próprias não percebemos bem o que se passava. E vá de mandar as ciganas tomar banho, coisa que não era fácil… Foi particularmente difícil para uma que era mais velha e nunca tinha tomado banho na vida. Quando descobrimos, claro que rimos muito. Mas ajudou à higiene colectiva…. Outra vez resolvi dançar rock, à boa maneira dos meus quinze anos, com uma rapariga enorme, que usava um gorro de carpélio e que estava presa por tentativa de homicídio de um velhote que a sustentava. Com voltas e reviravoltas e a passar por baixo das pernas, espalhámo-nos as duas ao comprido, com grande estrondo. O que nós rimos…

Penso que a frequência do liceu Maria Amália na juventude durante dois anos foi traumática? Foi a repressão moral que a violentou?  

O Liceu Maria Amália era paradigmático da repressão do regime somada à repressão sobre as raparigas. Não se podia entrar sem meias, fazia-se  ginástica com saia-calça até ao joelho, com a professora de ginástica sentada à braseira. Não se podia correr nos corredores. A beatice era generalizada. Havia as meninas preferidas. Foi um sonho mau.

O que pensa da expressão Deus não dorme?

É uma expressão bem típica das religiões do Livro. É o Deus vingador, aquele das barbas a trovejar no céu, que um dia fará justiça sobre os nossos inimigos, aqueles que nos fazem mal. Por mais que digam o contrário não era misericordioso. Ou seja, se não obtivermos justiça imediata, Deus que está sempre bem acordado, fará um dia justiça por nós. E veremos o inimigo bem esmagadinho. Ui! Que consolação, Deus não estava a dormir, visto que sofre de uma insónia permanente…

Já houve situações na sua vida pessoal em que o sono fosse bom conselheiro? Em que medida a ajudou? 

É sempre bom conselheiro. Sei que quando estou muito cansada e a tentar encontrar uma solução, uma palavra, um projecto, o melhor é dormir. No dia seguinte encontro-os. O inconsciente trabalhou sozinho. E as zonas mais cognitivas descansaram.

Adormece facilmente? É mais “coruja” ou “cotovia”? 

Adormeço facilmente se tiver um livro antes de adormecer. Sou “coruja”, o que, como o próprio nome indica, é mal visto socialmente. E passamos toda a vida a ser regidos pelos horários, pela disciplina, pelos comentários das “cotovias”, todas cantantes, todas cheias de energia mal desponta o sol. Eu só tenho o cérebro a trabalhar em pleno lá para as 10 ou 11 horas da manhã. Mas passei a vida a levantar-me cedo, contrariada, excepto em férias e fins-de-semana. Agora, continuo a trabalhar muito, mas a horas “decentes” e depois de ter dormido 9 horas. Ganhei vitalidade.

Lembra-se de alguma história pessoal divertida envolvendo o sono ou a falta dele?

Quando fiz concursos na carreira hospitalar e académica, e foram muitos, fiz directas e estudava muito, muitas horas. Numa dessas ocasiões, após muito trabalho e directas fui ao festival de Jazz de Cascais que era emblemático para a “malta” de esquerda antes do 25 de Abril. Como jazz que era, havia muito trabalho, com trompetes, percussão, tudo. Adormeci do princípio ao fim. Outra vez saí do banco de urgência do hospital, metemo-nos no carro e fomos a Madrid a uma reunião política. Quando estávamos na reunião ouvimos um estrondo no corredor. Pusemos a hipótese de ser uma bomba. Corri descalça, porque tinha tirado os sapatos para aliviar.

Estava um camarada espanhol estendido no corredor. Saltei para cima do tórax dele como se ainda estivesse no banco de urgência. E lá o amachuquei q.b. Mas era uma simples lipotímia, recompôs-se tudo e a reunião seguiu.

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