“Já nesta insónia sou antigo”

O escritor e poeta Vitorino Nemésio, autor do romance “Mau Tempo no Canal” e do programa de televisão “Se bem me lembro” escreve um poema sobre a insónia:

“Hipnótico amargo, vem!

Eu não me drogo nem me embriago:

Eu tudo temo e tudo trago,

Só esta noite é minha mãe

 

Hipnótico é sono de receita,

Ninguém comigo, oh Deus , se deita,

A rima antiga é o meu amor:

Mas outro amor que não dá rima

Porque me tira e dá sossego:

Da noite insone o dia vem.

 

Que o dia é ela, e ela ainda,

Depois só ela e a noite sem

Nem eu ou ela ao mundo vinda

Na dor que me rasga e tem:

Sim tem-me a dor, que é minha mãe.

 

De noite já madrugada

Trouxe-a sem ela a minha casa,

Metia-a a medo no coração:

Podia dormir comigo, —

 

(…)

 

Eu tinha esperança, mas quem ma dá?

Já nesta insónia sou antigo,

Sinto de ferro um fogo a inferno

Com doze ou mais demónios idos

Que me escarnecem na sucessão

Só por dizerem – Sabes, foi nossa:

Seu cheiro a rosa não é só teu:

A rosa Marga é o sol de todos

Maldito seja o que a escondeu!

Deus lhe dê paz e a mim a calma

Que não quer nada com a min’h alma

Embora eu saiba que ela é minha:

Minh’ alma? Ou ela no tranquil amargo?

Meu Deus, protege-a no mar largo,

E deita-a quieta na Fajã.

 

Eu velo até de manhã”.

In Vitorino Nemésio, Obras Completas, Vol. 3 Caderno de Caligraphia e outros poemas a Marga

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