“Levo as janelas do carro abertas para que o ar fresco me não deixe adormecer”

Salgueiro Maia, o capitão que liderou a Revolução do 25 de Abril era um homem especial, a quem os tempos políticos agitados que se seguiram muito marcaram.

Há três anos, em conversa do iSleep com a viúva do capitão de Abril, Natércia  Salgueiro Maia, esta revelou que o marido só se deitou para dormir 48 horas após a revolução. “A primeira noite que dormiu foi no sábado”, disse à nossa plataforma digital (o 25 de Abril de 1974 ocorreu numa quinta-feira). Nada mais natural, face às responsabilidades na revolução e às sensações fortes vividas por Salgueiro Maia.  

Porém, no Verão Quente de 1975, já desiludido com o rumo político que o país tomava, Salgueiro Maia não dormia por outras razões. É o próprio quem conta num depoimento para o livro “A Resistência”, de José Gomes Gomes Mota, publicado em 1976 pelas Edições Jornal Expresso.        

“Noite de regresso a Santarém, depois de mais uma esgotante reunião de 17 horas, levo as janelas do carro abertas para que o ar fresco me não deixe adormecer, pois já algumas vezes acordei na valeta. Luto contra o cansaço, o sono e os coletes que me querem enfiar. Continuo na minha, depois de tanto ‘jogo partidário’, só se sai do impasse com jogo ‘inteiro’.

Entretanto, acabo a auto-estrada, a parte mais difícil da viagem, por ser monótona e portanto mais convidativa ao sono. Depois vêm as curvas, a estrada estreita, com os carros na faixa oposta, muitas vezes com os faróis nos máximos; ajudam a manter os olhos abertos. O velho Datsun 1000 já quase sabe o caminho e vai ajudando. Ultrapasso Azambuja, são quase 4 da manhã, não se vê vivalma, nem carros”.

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