Manuela Nogueira, sobrinha de Fernando Pessoa: “O meu tio queixava-se de ter noites em que não dormia para escrever”

Manuela Nogueira

FONTE: TVI

Manuela Nogueira, 90 anos, sobrinha de Fernando Pessoa, que faleceu há 80 anos (a 30 de Novembro de 1935), viveu vários anos com a mãe e o tio em Campo de Ourique, na Rua Coelho da Rocha, em Lisboa, onde é hoje a Casa Fernando Pessoa. Ao iSleep recorda que o sono do poeta era difícil: “lembro-me de a minha mãe dizer, já que vivemos longos períodos juntos na Rua Coelho da Rocha, que ele se queixava de haver noites em que não dormia a escrever” diz Manuela Nogueira, também ela escritora, autora de romances e livros infantis e obras sobre Fernando Pessoa, entre as quais “O Meu Tio Fernando Pessoa”, recentemente lançado pela editora Centro Atlântico.

“Canções para acordar Crianças”.  

Em “O Meu Tio Fernando Pessoa”, Manuela Nogueira publica vários poemas que Fernando Pessoa fez para os seus sobrinhos, aos quais chamou “Canções para acordar crianças”.

 

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Manuela Nogueira conta neste livro, entre outras histórias, as brincadeiras que em criança tinha com o tio. Faziam de conta que estavam na barbearia do Sr. Manacés, o barbeiro do poeta. Manuela Nogueira, que tinha o diminutivo de Mimi, “empunhava uma faquita de baquelite a fingir de navalha e lá ia raspando a espuma e fazendo uma conversa própria  de barbeiro para o seu exigente cliente”. E Fernando Pessoa ia dizendo “Olha Mimi, vê lá se me cortas as orelhas ou o nariz”.

Também Ofélia Queirós, a namorada de Fernando de Pessoa, dizia que o poeta dormia pouco. Num depoimento de 1978, recolhido pela sobrinha-neta Maria da Graça Queiroz,Ofélia referiu: Fernando Pessoa “disse-me um dia:  “Durmo pouco e com um papel e uma caneta à cabeceira. Acordo durante a noite e escrevo, tenho que escrever, e é uma maçada porque depois o Bebé não pode dormir descansado” “Bebé” era o “petit nom” que Fernando Pessoa chamava a Ofélia nas cartas de amor. A “maçada” que daria a Ofélia por a acordar é uma justificação que o poeta dá à namorada para que a sua relação não tenha futuro mas esconde a real razão: o poeta não pode dedicar-se emocionalmente a ninguém para se dedicar por inteiro à sua obra. 

Fernando Pessoa tem vários poemas sobre o sono e a insónia. Um deles, precisamente intitulado “insónia”, do seu heterónimo Álvaro de Campos, já publicado na secção Sleep&Arts:     

 

“Não durmo, nem espero dormir.
Nem na morte espero dormir.

Espera-me uma insónia da largura dos astros,
E um bocejo inútil do comprimento do mundo.

Não durmo; não posso ler quando acordo de noite,
Não posso escrever quando acordo de noite,
Não posso pensar quando acordo de noite —
Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite!

Ah, o ópio de ser outra pessoa qualquer!

Não durmo, jazo, cadáver acordado, sentindo,
E o meu sentimento é um pensamento vazio.
Passam por mim, transtornadas, coisas que me sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que me não sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que não são nada,
E até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo.

Não tenho força para ter energia para acender um cigarro.
Fito a parede fronteira do quarto como se fosse o universo.
Lá fora há o silêncio dessa coisa toda.
Um grande silêncio apavorante noutra ocasião qualquer,
Noutra ocasião qualquer em que eu pudesse sentir.

Estou escrevendo versos realmente simpáticos —
Versos a dizer que não tenho nada que dizer,
Versos a teimar em dizer isso,
Versos, versos, versos, versos, versos…
Tantos versos…
E a verdade toda, e a vida toda fora deles e de mim!

Tenho sono, não durmo, sinto e não sei em que sentir.
Sou uma sensação sem pessoa correspondente,
Uma abstracção de autoconsciência sem de quê,
Salvo o necessário para sentir consciência,
Salvo — sei lá salvo o quê…

Não durmo. Não durmo. Não durmo.
Que grande sono em toda a cabeça e em cima dos olhos e na alma!
Que grande sono em tudo excepto no poder dormir!

Ó madrugada, tardas tanto… Vem…
Vem, inutilmente,
Trazer-me outro dia igual a este, a ser seguido por outra noite igual a esta…
Vem trazer-me a alegria dessa esperança triste,
Porque sempre és alegre, e sempre trazes esperança,
Segundo a velha literatura das sensações.

Vem, traz a esperança, vem, traz a esperança.
O meu cansaço entra pelo colchão dentro.
Doem-me as costas de não estar deitado de lado.
Se estivesse deitado de lado doíam-me as costas de estar deitado de lado.
Vem, madrugada, chega!

Que horas são? Não sei.
Não tenho energia para estender uma mão para o relógio,
Não tenho energia para nada, para mais nada…
Só para estes versos, escritos no dia seguinte.
Sim, escritos no dia seguinte.

Todos os versos são sempre escritos no dia seguinte.
Noite absoluta, sossego absoluto, lá fora.
Paz em toda a Natureza.
A Humanidade repousa e esquece as suas amarguras.
Exactamente.
A Humanidade esquece as suas alegrias e amarguras.
Costuma dizer-se isto.
A Humanidade esquece, sim, a Humanidade esquece,
Mas mesmo acordada a Humanidade esquece.
Exactamente. Mas não durmo”.

Álvaro de Campos, in “Poemas”
Heterónimo de Fernando Pessoa

 

 

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