“Pensamos pior quando dormimos pouco”

 

 

Paula Moura Pinheiro

Paula Moura Pinheiro, jornalista, apresentadora de vários programas culturais, de televisão e rádio, como o “Câmara Clara” e o “Visita Guiada”, diz em entrevista ao iSleep que “o sonho é misterioso e é natural que aguce o interesse dos artistas”. Sobre o recém-empossado Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, diz que “dorme pouco mas visivelmente funciona”.

 

Como repórter houve algum trabalho onde o sono foi o grande sacrificado? 

Houve variadíssimos. Quando comecei, no Expresso, há 25 anos, fiz uma reportagem sobre tribos juvenis urbanas que me obrigou a noites loucas até muito tarde (ou muito cedo). É só um exemplo.

E como entrevistadora, algum  entrevistado  lhe fez referência a qualquer aspecto curioso relacionado com o sono? Ou com os sonhos?   

Os ficcionistas, romancistas, contistas, poetas,  tiram, em geral, imenso proveito dos sonhos. Muitos gostam de dormir até tarde de manhã e trabalhar pela noite dentro.

 Muitos políticos referem que dormem pouco. Devemos sentir-nos tranquilos face às decisões cruciais que tomam?

Não. Os políticos pensam pior quando dormem pouco, como qualquer um de nós.

No PREC, Portugal foi governado por homens sem sono. Pensa que teve alguma influência nos acontecimentos?

Creio que o PREC era inevitável. Depois de um “sono” de mais de 40 anos era inevitável acordar a estrebuchar…

Tivemos um Presidente da República, Mário Soares, que dormia com uma facilidade impressionante, por vezes em qualquer lugar. Hoje temos um Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, que praticamente não dorme… 

Bom, mas, visivelmente, funciona. As pessoas são diferentes e há sempre excepções à norma. Os que dormem demais e os que dormem de menos.

O ex-ministro grego Yanis Varoufakis, disse numa entrevista a um jornal espanhol que estava aliviado por se ter libertado “de uma vida enlouquecida, absolutamente inumana, em que dormiu duas horas por noite durante cinco meses”. Duas horas por noite parece bastante pouco…

A situação da Grécia também era excepcional. E mais excepcional ainda era aquilo que Varoufakis se propôs fazer. Não creio que tenham sido as duas horas de sono a impedi-lo…

No início da última Cimeira do clima em Paris, a secretária executiva Christiana Figueres apelou a que os negociadores descansassem para não perderem o foco nas decisões…  

É uma boa recomendação. Temos de mudar a forma como vivemos e trabalhamos. E a Cimeira do Clima é o local perfeito para raciocinar de modo diferente.

A arte está repleta de representações sobre o sono e o sonho. É um mistério que os artistas gostam de retractar? 

O sonho é, de facto, misterioso e é natural que aguce o interesse aos artistas.

Qual o texto literário sobre o sono ou o sonho que gosta mais?

Há muitíssimos, mas gosto muito de um livro de Rosa Montero, “A Louca da Casa”, que nos fala do processo criativo e de como, a dada altura, tudo se confunde e tudo é possível.

E a obra de arte, englobando a pintura e o cinema?

Todos os surrealistas produziram peças interessantes sobre o sono e o sonho. Nas artes visuais também, cinema incluído.

Tem preocupações de comportamentos de higiene do sono, como não beber café, deitar e levantar a horas regulares, etc.?

Tenho. Preciso, absolutamente, de dormir oito horas por noite, sob pena de não funcionar. Só tomo um café por dia. De manhã, quando acordo.

O que pensa da expressão Deus não dorme?

Acho que é verdadeira. Deus pode mais do que nós.

Já houve situações na sua vida em que o sono foi bom conselheiro? Em que medida a ajudou? 

Com os anos aprendi a dormir sobre as minhas decisões e os meus textos. O upgrade de qualidade de vida foi significativo.

Já disse ou pensou “é para o lado que eu durmo melhor”? 

Já. E é mesmo verdade.

Adormece facilmente? É mais “coruja” ou “cotovia”? 

Tenho sempre de ler antes de dormir. Mas funciona bem.

Lembra-se de alguma história pessoal ou profissional  divertida com o sono ou a falta dele?

Se tenho de gravar de manhã cedo é um problema. Tendo a confundir as coisas. Agora que faço o Visita Guiada e que trabalho muito sobre História isso pode ser embaraçoso: confundir séculos, reis, batalhas…

 

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