“Muitas crianças estão a trabalhar mais que as 35 ou 40 horas dos adultos”

Teresa Paiva escreve um artigo sobre o sono das crianças e adolescentes, cada vez mais dependentes dos jogos electrónicos, cada vez com mais tarefas, cada vez com o  sono mais reduzido e a fadiga aumentada. O artigo foi publicado na revista Marketeer do mês de Junho de 2017, no suplemento Marketeer  Kids.

Durante o século XX a energia passou a estar disponível de forma generalizada e houve importantes mudanças sociais: Algumas tiveram impacto no sono-vigília: o trabalho por turnos generalizou-se a múltiplos grupos profissionais e a todos os continentes; as viagens intercontinentais tornaram-se comuns; a sociedade do trabalho instalou-se com exigência de maiores ritmos de trabalho e maior competição; a sociedade 24/7, 24horas “on-line”/ 7 dias por semana tornou-se regra.

Por outro lado, os paradigmas culturais mudaram; o ter passou a valer mais que o ser; os direitos, antes considerados fundamentais, estenderam-se a muitos aspectos não fundamentais; o sucesso tornou-se imperativo e os chamados limites naturais ou biológicos foram substituídos por um “não há limites”; os ideais desapareceram, as notícias do mundo tornaram-se aborrecidas e muitos passaram a estar sós, sem motivação e sem sentido de vida num mundo carregado de informação.

O desenvolvimento tecnológico trouxe consigo uma parafernália de instrumentos “high-tech”, entre os quais avultam os jogos, os divertimentos, a televisão, as comunicações, os telemóveis e os computadores pessoais, cada vez mais pequenos e com maiores capacidades.

O mundo, o universo, passou a estar circunscrito ao retângulo do telemóvel, que carregado com jogos, chats e vídeos contém uma série aparentemente infinita de coisas monotonamente parecidas. Os jogos vão reforçando o uso com uns toques de sucesso, os chats e os vídeos com uns “likes”. Estes “reforços” vão direitinhos para os centros cerebrais de prazer, e o prazer passa a existir com pouca coisa, mas as pessoas, novas e velhas, ficam presas àquele écran, sorriem-lhe desvanecidas, seguras naquela companhia, inexistente por virtual.

Os jovens em vez de olharem para o horizonte em campo aberto e perscrutarem o desconhecido, inclinam-se para baixo e focam o “quadradinho”. O pescoço entorta-se e a postura torna-se curvada, as dores cervicais hão-de chegar um dia, mas … até lá…

Os jogos são o máximo! Perdi este, mas vou ganhar o próximo; já matei 5 mas tenho de matar 10; ganhei 300 mas tenho de chegar aos 500, e assim se continua o jogo. Os jogos viciam, mas até lá … é só mais um joguinho…

Os chats são uma coisa fantástica, como é bom falar muito de coisa nenhuma, estar sempre atento, responder rápido, mesmo que seja com pequenas interjeições concordantes ou discordantes, ou até com ícones, corações e carinhas que multiplicamos às dezenas; estamos ligados, sempre atentos não vá uma mensagem entrar, sempre próximos, tanto de dia como de noite com o tm debaixo da almofada para respostas ensonadas.

As câmaras são coisas fantásticas, tão simples e pequeninas! A nossas imagens são uma beleza. Nós somos todos uma beleza! Deixamos de olhar para filmar, deixamos de ver para fotografar. É mesmo lindo, mas os perigos estão atrás da porta ou vêm com mensagens sedutoras, “que linda” “és único, és especial”, que enganam e mentem para depois dominar e destruir, agredir ou chantagear no horror do cyberbullying.

O stress aumentou, ninguém pára, as crianças com os trabalhos e as atividades escolares, os adultos com o trabalho e as responsabilidades. O multitask tornou-se regra e não, como devia ser, exceção. A atenção anda em zig-zag daqui para ali, deste assunto para aquele e a memória começa a falhar. As crianças, para terem sucesso quando forem adultas, estão em tantas atividades quanto possível, mesmo que os objectivos ou requisitos de algumas sejam os mais opostos.  Para terem boas notas andam em múltiplos explicadores perdendo o hábito de resolver problemas e de aprender de forma independente. Vão cedo para a escola e saem bem tarde, acompanhando os horários dos pais. Muitas crianças estão a trabalhar mais que as 35 ou 40 horas dos adultos.

Em consequência de tudo isto o dia estendeu-se para a noite, o sono ficou mais curto e passou a ocorrer fora de horas; os ritmos alimentares modificaram-se com refeições rápidas, irregulares e tardias, em pé, a andar ou com a sandes ao lado do PC.

A fadiga tornou-se uma queixa comum. Meninos e pais estão mais ou menos exaustos.

Cansadas e cheias de obrigações as famílias desagregam-se, reformulam-se em moldes não antes experimentados. No mesmo torvelinho, muitas vezes à beira da ruptura, são envolvidos escolas e professores.

É neste ambiente, sem horas, sem pausas, sem regras, com muitas solicitações e exigências, num meio familiar cansado e irritável, quantas vezes precário por causa da crise ou das zangas, que vivem muitas crianças e adolescentes.

Sem outras âncoras agarram-se aos amigos do facebook, ao telemóvel, aos jogos numa qualquer consola. O dormir fica para depois.

Nos EUA 40% dos estudantes liceais ou universitários dorme de menos. Tanto em Portugal como no Brasil vários estudos comprovam estes resultados e/ou demonstram as consequências da falta de sono no sucesso escolar ou na saúde.

O problema é que nas primeiras décadas da vida cresce-se e aprende-se de um modo único, que nunca mais se repetirá. E tanto esse “crescer” como esse “aprender” assentam e precisam do sono, que é naturalmente longo na infância e na juventude.

A redução do sono em crianças e adolescentes é um problema importante de saúde pública pelas suas consequências a curto e a longo prazo.

A curto prazo há problemas de saúde, insucesso académico e comportamentos de risco; a longo prazo temos doenças crónicas como obesidade, hipertensão, diabetes tipo II, depressão e insónia que vão durar toda a vida.

Para ter sucesso, saúde e ser feliz garanta antes de mais a qualidade do sono, do seu e dos seus.”

 

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