“Na Coreia do Norte dorme-se em esteiras com o chão aquecido”

 

O escritor José Luís Peixoto fala do seu romance “Uma Casa na Escuridão” em que no final de cada capítulo a personagem principal adormece para despertar no capítulo seguinte, detalhe que visou levar o leitor “a aceder ao negativo”. Também conhecido por já ter viajado até à Coreia do Norte, tendo escrito um livro sobre a experiência, Peixoto refere que os norte-coreanos “deitam-se bastante cedo” e “dormem em esteiras com o chão aquecido”.

A literatura tem muitas referências ao sono e ao sonho. É um mistério que os escritores gostam de retratar…   

É natural que assim seja. O sono é uma parte fundamental da nossa vida, uma parte deste ciclo que vamos cumprindo. O objecto da literatura contempla tudo aquilo que diz respeito à vida. Já os sonhos são feitos de muito que também é matéria da literatura, como é o caso da memória, por exemplo.

Nos seus livros, o sono e o sonho têm sido forte motivo de inspiração? 

Com mais ou menos relevância acabam sempre por estar presentes. No meu segundo romance, Uma Casa na Escuridão, no entanto, esses assuntos têm um papel estruturante. Trata-se de uma narrativa em que no final de todos os capítulos a personagem principal adormece ou perde a consciência e desperta no início de cada capítulo. Como a lógica que rege aquela realidade é bastante onírica, a minha intenção com esse detalhe era sugerir que talvez o leitor estivesse a aceder ao negativo, ou seja, sugerir que a personagem está a despertar para os sonhos (ou pesadelos) e afinal, essa é a realidade que ali está em causa.

O que pensa da expressão Deus não dorme?

Parece-me que é uma das várias formas de demonstrar o carácter supra-humano de Deus. Os seres humanos, seguramente, não passam sem dormir.

Conhece bem a Coreia do Norte. Apercebeu-se dos hábitos de sono neste país?  

Na Coreia do Norte, normalmente, as pessoas dormem em esteiras que, durante a noite, são estendidas no chão, que é aquecido através de um sistema de calefacção. Durante o dia, essas esteiras são guardadas num armário que existe especificamente para esse efeito. Assim, nem todos os membros da família têm quarto próprio. É um lugar onde as pessoas se deitam bastante cedo e despertam também bastante cedo, essa característica é própria do estilo de vida do país mas também é uma forma clara de aproveitar a luz solar, uma vez que a electricidade é um bem escasso.

Já houve situações na sua vida em que o sono tenha sido bom conselheiro? Em que medida o foi? 

É muito frequente. Em questões de escrita, se me deparo com algum problema acontece-me muito dar algum tempo ao texto. No dia seguinte, após uma noite de sono, já o consigo olhar noutra perspectiva e quase sempre encontrar uma solução para aquilo que me estava a intrigar.

Adormece facilmente? Já teve insónias? É mais “coruja” ou “cotovia”? 

Nunca tive insónias, creio que tenho uma boa relação com o sono, felizmente. Houve momentos da minha vida em que tinha o hábito de adormecer e acordar tarde. Actualmente, não é tanto assim. Adormeço e acordo a horas que me parecem as mais normais.

Tem alguma história divertida, pessoal ou profissional, relacionada com o sono ou a falta dele?

Nos últimos tempos, o jet lag tem-me levado a adormecer em algumas situações inconvenientes, mas nada de muito grave.

Pode contar-nos um sonho profundamente fantasioso que tenha tido?

Costumo ter sonhos bastante elaborados e delirantes. No entanto, apenas os recordo durante alguns minutos depois de acordar. Se não os anotar, acabo por esquecê-los logo em seguida, que é o que tem acontecido ultimamente.

 

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