“Nas últimas 24 horas antes de chegarmos ao contacto com os indonésios, não dormi: era impossível.”

Rui Marques foto de Edgar Pacheco

Rui Marques em Timor, a bordo de uma lancha chamada Lusitânia Expresso em homenagem ao navio de 1992 Foto: Edgar Pacheco

Rui Marques tem um lugar na história portuguesa e de Timor ao ter tentado em 1992 chegar a Timor-Leste, então ocupado pela Indonésia no barco Lusitânia Expresso. O ex- Alto Comissário para a imigração, hoje presidente do Instituto Padre António Vieira, revela que não dormiu nas 24 horas que antecederam a intercepção do navio pela marinha indonésia e que os mais de cem activistas a bordo pernoitaram no convés, em más condições de repouso, o que “constituía um dos principais problemas a enfrentar”. “Apesar de tudo, foi possível manter grande serenidade entre os participantes, em todos os momentos. Nunca se verificou qualquer descontrole emocional ou situação de pânico”, acrescenta. 

Foi  Alto Comissário para a imigração, tem desenvolvido variadíssimos projectos na área social, educativa, cultural, etc. Hoje é presidente do Instituto Padre António Vieira. Numa linha transversal, que lugar pode ter a saúde, com enfoque nos comportamentos preventivos, em projectos como os que tem desenvolvido ou venha a desenvolver? 

No entendimento moderno do conceito de saúde, enquanto completo bem-estar físico, psíquico e social, tudo o que tenho feito, como provavelmente todos nós, interage com o estado de saúde de diferentes populações. Isso é claro não só nos casos mais evidentes, como quando trabalhámos a questão da integração dos imigrantes, ou no apoio a pessoas desempregadas, com os Grupos de Entreajuda para a Procura de Emprego, como também noutros projetos mais secundários, como o Forum para a Governação Integrada, que aborda problemas sociais complexos e respetivas políticas públicas. A promoção da saúde continua a ser, seguramente, um eixo do nosso trabalho, mesmo que indiretamente.

Os imigrantes são um grupo muito vulnerável em relação aos problemas de saúde em geral e também do sono ? 

Na generalidade, os imigrantes económicos são absorvidos pelo mercado de trabalho particularmente para os empregos “sujos, perigosos e mal-pagos”. Nesse sentido, sofrem na sua experiência migrante muitos impactos negativos na saúde. São também mais frequentemente vítimas de acidentes laborais. Ao nível do sono, porque muitas vezes trabalham em empregos por turnos, sofrem das consequências próprias dessa contingência. Acresce que muitos deles sofrem o efeito do impacto da saudade ou da dificuldade de integração numa terra estranha. Para se ser imigrante é necessário desenvolver uma enorme capacidade de resiliência psicológica e física a muitas adversidades.

Uma das suas acções mais conhecidas foi a viagem do Lusitânia Expresso, em 1992, durante a ocupação de Timor pela Indonésia .  Era um barco com poucas condições para mais de cem pessoas que partiram de Darwin e foram impedidas de chegar a Díli pela marinha de guerra indonésia…. Face às circunstâncias, o stress também seria muito. As pessoas conseguiram descansar? Houve quem não pregasse olho?  Existiu muita tensão entre as pessoas? 

É curioso que de todas as ocasiões em que fui convidado a responder a questões sobre o Lusitânia Expresso  é a primeira vez que esta questão é colocada, sendo que é um fator da maior relevância para compreender algumas condicionantes do projeto. O barco era um ferry-boat para travessias curtas, portanto sem camarotes para dormir. O que quer dizer que os participantes do Lusitâni Expresso dormiam no convés, sem quaisquer condições de conforto. Atendendo que o clima era de tensão, sobretudo por se desconhecer o que iria acontecer quando nos confrontássemos com a Marinha indonésia, a ausência de condições de repouso adequado constituía um dos principais problemas a enfrentar. Mas, apesar de tudo, foi possível manter grande serenidade entre os participantes, em todos os momentos. Nunca se verificou qualquer descontrole emocional ou situação de pânico. É de referir a nossa opção de ter connosco uma equipa médica que integrava uma psiquiatra e que deu um contributo relevante para enfrentar as circunstâncias.

No seu caso, conseguiu dormir? 

Quanto a mim,…não, nas últimas 24 horas antes de chegarmos ao contacto com os indonésios, não dormi. Era impossível

Viveu vários meses em Timor. Como foi a sua adaptação em virtude de uma diferença horária de oito horas? E depois em Portugal no regresso?

Depois dos primeiros dias de acerto de horas de sono e correspondentes efeitos de jet-lag, convivi muito bem com tudo o que Timor representa, desde o clima, aos aromas ou à humidade. A minha experiência de estadia em Timor, entre 2001 e 2002, foi extraordinária. Mais difícil é em viagens que implicam uma estadia curta em Timor conseguir acertar os sonos.

Apercebeu-se de diferentes hábitos do sono dos timorenses em relação aos portugueses?

Em geral, os timorenses têm o hábito de se levantar muito cedo, acompanhando o ciclo diurno da luz e aproveitando o fresco da manhã. Muitas vezes também integram uma “sesta” à tarde no seu ciclo de sono.

Licenciou-se em medicina. Como surgiu a motivação para o curso?  Chegou a exercer?

Nunca exerci, pois ao terminar o curso enveredei por outra área profissional que também já exercia, a comunicação social . A motivação é a mesma que permanece hoje quando me envolvo em causas sociais. A medicina era para mim um espaço de expressão do cuidado solidário com os outros. Felizmente encontrei essa janela de realização pessoal noutras atividades, pelo que não me arrependo de não ter exercido a profissão de médico.

Quando tirou o curso de medicina, teve alguma cadeira onde fosse salientada a importância de um bom sono e comportamentos de higiene do sono?

Sim, mas sem o destaque merecido. Creio que hoje há uma consciência muito mais apurada da relevância do sono para a saúde.

Faz sentido haver uma especialidade médica do sono ou pelo menos os médicos de família e de clínica geral estarem mais sensibilizados para as questões do sono? 

Creio que seguramente é necessário que todos os médicos, em particular os médicos de família, dominem bem o conhecimento referente às questões do sono e da saúde. Mas isso não dispensa que alguns profissionais possam aprofundar o seu conhecimento nesta matéria e se tornem especialistas nas temáticas do sono.

Depois da medicina  enveredou por uma formação distinta, fazendo o mestrado em comunicação social. Recentemente fez o doutoramento no ISEG, em Sociologia Económica. É uma formação bastante diversificada… 

Sempre sonhei ser um homem da Renascença. Divido-me por múltiplos interesses e gosto de fazer coisas muito diferentes. Isso tem a vantagem de ter muito por onde me realizar e onde possa ser útil mas o inconveniente do desfoque e de ser sempre um generalista. Procuro o equilíbrio nesta natureza “divergente”.

A classe política dorme pouco e muitas vezes faz gáudio disso. Tranquiliza-o saber que os homens e mulheres que tomam decisões cruciais dormem pouco?

Acho que dormir pouco é um risco, embora perceba que muitas vezes é difícil conseguir dormir muito e bem. Mas decisores mal dormidos são potencialmente um perigo, com as suas capacidades de discernimento e de ponderação afetadas. Saber descansar deveria ser uma regra de ouro de qualquer decisor.

O Rui Marques é há muitos anos um cidadão de  causas, também  capaz de as executar. Portugal tem há bastante tempo necessidade de uma sociedade civil mais empenhada que traga sangue novo para a política. Faço-lhe esta pergunta por causa do Movimento Esperança Portugal, que concorreu a eleições. O MEP tinha condições para dar certo. Na sua opinião o que falhou?

De uma forma simples, o que falhou foi a existência de um número suficiente de cidadãos que quisesse ser representado pelo MEP na Assembleia da República, depositando nele o seu voto. É assim que funciona uma democracia representativa e que muito respeitamos.

Da nossa parte, fizemos tudo o que devíamos e podíamos para nos disponibilizarmos a servir o bem comum através da política. Os nossos concidadãos não acolheram, em número suficiente, essa disponibilidade e estão no seu pleno direito. Mas o que importa mesmo não são os sucessos imediatos e aparentes de uma causa, mas os valores pelos quais nos batemos. E a luta pela justiça social, por uma sociedade mais humanista e solidária, continuou no dia seguinte ao final do MEP, no regresso à sociedade civil e à intervenção solidária através do Instituto Padre António Vieira.

O que pensa da expressão Deus não dorme?

Dá-me imensa segurança e tranquilidade. Interpreto-a, como cristão, de uma forma muito diferente da sua utilização corrente como expressão de “vingança do destino”. Para mim, Deus não dorme porque cuida permanentemente, em todas as circunstâncias, mesmo quando estamos distantes. O Deus-amor não podia dormir.

Já houve alturas em que sentiu que o sono foi bom conselheiro?

Sim, muitas vezes. E outras arrependi-me de não o ter consultado.

Já teve insónias? É mais “coruja” ou cotovia”?

Infelizmente, as insónias são muitas vezes minhas companheiras noturnas. E sou claramente “coruja”. O silêncio da noite conforta-me e abre as portas à criatividade.

Pode contar-nos um sonho fantasioso que tenha tido?

Lembro muito pouco do que sonho e do que me lembro, nada de muito interessante. Os meus sonhos quando estou acordado são muito mais estimulantes.   São eles que me fazem andar para a frente, em busca de novos mundos.

 

 

 

 

 

Comments are closed.