“No sonho, saía uma coisa em forma de assim”

O escritor e poeta surrealista Alexandre O’ Neill fala de um sonho no seu famoso livro “Uma coisa em forma de assim”, que reúne crónicas que publicou na imprensa. 

“Tentava a senhora dizer o que vira, mas não encontrava (ou não tinha) as palavras. Fazíamos os dois conversa. Mais precisamente: troca de monólogos. Através da senhora, recontei a mim mesmo, com pormenorizadas mentiras, a morte desse que fora o meu pai. Pus um tal realismo no relato imaginoso do passamento de “o pai”, que a senhora descruzou as pernas e as abriu (diria, escancarou) como se quisesse acolher e sepultar o pobre do morto no seu ventre. Pensei: “A poltrona recebe a senhora, a senhora recebe o meu pai.”
Ela cortou, então, a fatia de tempo que lhe cabia (era a sua vez) para, cruzadas de novo as pernas, me contar como a quinta do Alto Minho se perdera. Disse:
– A mãe tentou tudo, mas…
Hipotecas. Vencimentos. Moratórias rogadas e negadas. Malvadez de credores. Ponto final.
Dentre os salvados da quinta do Alto Minho, um relógio de caixa viera deixar de trabalhar para a casa citadina da senhora. Explicou:
– Os relógios de pesos são muito difíceis de acertar.
E prosseguiu:
– Em pequenita, eu tinha um sonho, um sonho muito esquisito e que se repetia sempre…
Eu disse:
– Sim?
Ela:
– O relógio – este que o senhor está a ver – batia – claro, isto no sonho – vinte e quatro badaladas. Abria-se então a porta da caixa e saía uma coisa assim. Não lhe sei dizer. Era uma coisa em forma de… Assim.
A senhora arredondava para mim gestos indefinidos.
Continuou:
– Eu acordava sempre nesse momento do sonho, assustada e alagada em suor. Que acha o senhor que poderia ser?
Tropecei no cliché “alagada em suor”. Disse:
– Não sei. É difícil saber.
Olhei para o relógio. Imaginei-o sonhado pela adolescente que vivera naquela mulher. Depois desinteressei-me desses não-pensamentos. Construí, então, outra ilha de palavras.
Durante a construção, ela descruzou e escancarou as pernas, mas a sua atitude, bem diferente da que parecera assumir ao princípio, era a de quem queria devolver-me, a todo o custo, esse que fora o meu pai.”

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