“Nunca tive uma insónia, juro!”

Alice Vieira, escritora e jornalista em entrevista ao iSleep diz que nunca teve problemas para dormir. “É tiro e queda” acrescenta com humor. Na vasta obra de literatura infantil de que é autora não tem nenhum livro com  “sonho” no título mas pode vir a caminho.

Sabemos que a Alice Vieira dorme pouco, muitas vezes apenas duas horas. É uma “short sleepper”, sem necessidade de muitas horas de sono? 

Alice Vieira — Eu durmo pouco, porque não tenho tempo para dormir mais… Ando em escolas quase todos os dias, faço uma média de 80 por ano lectivo, e devo ser das passageiras mais frequentes do Alfa das 6 da manhã para o Porto… Deitando-me tarde, já vê quantas horas me restam… E às vezes lá faço uma directa… Mas a verdade é que não me ressinto disso, quer dizer, não ando a dormir pelos cantos nem seria capaz de fazer sestas ou coisa semelhante. E sempre me lembro de ouvir as minhas tias dizerem que eu dormia muito pouco em criança. Já agora, também nunca tive uma insónia, juro!

Na vastíssima obra da Alice Vieira, penso que não tem nenhum livro que tenha “sono” no título…

Agora que me fala nisso… Acho que não, realmente. Se isso fosse um problema na minha vida, se calhar tinha.. Como não é…Mas pode ser que um dia destes ainda me resolva…

Lembra-se de algum momento da sua vida em que o sono tenha sido bom conselheiro?

Por acaso não é uma expressão que eu use. Mas o “dormir sobre…”  qualquer problema difícil de resolver é sempre bom.  Não há nada como as manhãs para tudo parecer melhor. E eu sou fundamentalmente das manhãs, da claridade, do sol…Reajo muito mal à chuva e aos dias sem sol. Mas não me lembro de nenhum exemplo concreto.

A que horas  gosta mais de escrever?

Gostava de poder escrever logo pela manhã. Com os barulhos todos que se ouvem aqui no 6º andar do meu prédio de esquina. Na verdade, não gosto de escrever em silêncio… Muitos anos na redacção dos jornais, quando os jornais eram sítios barulhentos—é o que dá… Mas acabo por escrever quando posso. E normalmente posso mais durante a noite porque durante o dia estou ocupada com outros trabalhos, escolas, bibliotecas, reuniões, etc.

Acontece-lhe acordar com uma ideia relacionada com um livro? Costuma registá-la?

Acontece-me muitas vezes adormecer a pensar “que é que eu vou escrever amanhã para a crónica do jornal ou revista  e acordar com ela toda feita na cabeça… Dá imenso jeito!

A literatura está cheia de referências ao sono, às perturbações do sono…. Como as interpreta?

Como qualquer coisa que não me diz respeito, mas que é bom conhecer …

Proust descreve em quase 30 páginas a dificuldade de uma personagem em adormecer…

Pois. Calculo. Deve ser terrível. Eu faria a descrição numa linha só…Desde que ponho a cabeça na almofada, só acordo no dia seguinte, ou 3 horas depois, ou 4… enfim, as horas que tiver para dormir. Como se costuma dizer, é tiro e queda.

No livro de Tchekov “A Sonolenta” uma ama mata o filho para poder dormir…

Que horror! Graças a Deus, os meus filhos nunca me deram más noites. As minha amigas costumam dizer “tu sabes lá o que é criar um filho!”, porque a verdade é que eles nunca me deram uma má noite. Eu dormia para um lado e eles para o outro. Às vezes, em bebés, lá acordava eu de repente, “oh meu Deus, já passou a hora de dar de mamar!”… Mas estava tudo calmo e a dormir…

 Já colocou em livro sonhos que tenha tido? Que histórias foram?

Sonhos, não. Mas, como já disse, às vezes vem uma crónica quase pronta…

Freud disse que “o sonho é o fiel guardião da nossa saúde psíquica, da nossa alegria de viver, uma vez que a vida não  passa de uma contínua procura do prazer, contrariada pela realidade”…

Claro que é bom sonhar—mas eu, que, desde muito criança, me habituei a ter os pés bem assentes na terra, acho que a vida também nos pode dar prazer e  muitas coisas boas. Desde que se faça por isso.

Há alguma história pessoal divertida de que se lembre relacionada com o sono?

 Durmo em qualquer lado. Nem que seja por cinco minutos. E quem me conhece já sabe disso. Hoje fui fazer uma TAC e a enfermeira, quando ia a sair virou-se para mim e exclamou “pelo amor de Deus, não adormeça!”