O despertar de Henrique na “Morgadinha dos Canaviais”

Júlio Diniz 1

“Ao romper da manhã, quando a consciência principia, pouco a pouco, a acudir aos sentidos, até então tomados pelo torpor de um sono profundo, Henrique de Souselas sonhava-se comodamente sentado em uma cadeira de S. Carlos, disposto a assistir ao desempenho de uma ópera favorita.

Moviam-se os arcos nas cordas dos violinos, violoncelos e contrabassos; sopravam, a plena boca, os tocadores dos instrumentos de vento; agitavam descompostamente os braços os ruidosos  timbaleiros; dedos amestrados fariam faziam vibrar as cordas da harpa; a batuta do mestre fendia airosamente os ares, e contudo não chegava aos ouvidos de Henrique, de toda esta riqueza de instrumentação, mais do que uma nota única, arrastada, contínua, plangente, baixando e subindo na escala dos tons, e sem formular uma só frase musical.

Era de desesperar um ‘diletante’ como ele; torcia-se na cadeira, inclinava convenientemente a cabeça, fazia das mãos cornetas acústicas, e sempre o mesmo resultado! Este violento estado de atenção, este esforço do sensório, principiou nele a obra do despertar; principiou pois meus ouvidos, mas cedo se transmitiu a todos os outros órgãos.
Antes de dar a si próprio conta do que era aquele som e quase esquecido ainda do lugar em que estava, Henrique abriu os olhos.
A luz do dia penetrava já pelas frestas mal vedadas das janelas e espalhava no aposento uma tênue claridade. Veio então a Henrique consciência do lugar onde estava, e uma alegria profunda lhe dilatou o coração.

O leitor, se ainda não padeceu de insónias, de pesadelos, ou de sonhos febris, não avalia por certo o contentamento íntimo, que se apossa das desgraçadas vítimas desses demónio nocturnos, quando por excepção eles as deixam em paz, e lhes respeitam o sono de uma noite completa. Acordar só aos raios da aurora é um dos mais inefáveis prazeres, a  que eles aspiram na vida.

Foi o que sucedeu a Henrique. Pela primeira vez, depois de muitos meses, dormira de um sono a noite inteira. Sentia-se com isso tão bom, tão vigoroso, tão contente que teve vontade de cantar.”

in “A Morgadinha dos Canaviais”, de Júlio Dinis, Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses

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