“O efeito das perturbações do sono na economia é um bom tema para discussão futura”

 

Pedro Pita Barros, professor catedrático de Economia na Universidade Nova de Lisboa, diz em entrevista ao iSleep que “a partir de um certo número de horas de trabalho o tempo adicional tem pouco efeito e é tempo retirado ao sono”, reflectindo-se na produtividade.

Os portugueses são dos europeus que trabalham mais horas mas um dos menos produtivos. Como explicar esta contradição?

Não é realmente uma contradição. Produzimos pouco valor em cada hora. Parte está associado com o tipo de produtos e serviços em que usamos essas horas, com menor valor em média no que nos outros países europeus, parte está associado com a forma como os produzimos, gastando mais horas para obter os mesmos resultados.

Somos um dos povos europeus que se deita mais tarde, aquilo a que os especialistas em medicina do sono chamam atraso de fase do sono. Como é que um professor de economia como o Pedro Pita Barros vê este comportamento, nas suas causas e nos seus efeitos?

Não tenho opinião formada. Até agora não foi assunto sobre o qual tenha tido oportunidade de fazer uma reflexão. No seguimento da pergunta anterior, percebo que uma questão relevante é saber se a menor produtividade por hora poderá estar associada com hábitos de deitar e com o sono. Mas não tenho realmente resposta.

Há estudos internacionais que relacionam a privação do sono com uma perda da produtividade, com reflexos no PIB. Pode comentar?

Embora nunca tenha colaborado em estudos com esse objectivo, é um resultado plausível. Em geral, à medida que colocamos mais recursos em algo, o ganho adicional em termos de resultados tende a ser menor — as famosas economias de escala surgem usualmente em fases iniciais de produção ou trabalho. Olhando para o tempo tomado a trabalhar, é perfeitamente razoável pensar que a partir de um certo número de horas o tempo adicional gasto tem pouco efeito, e é tempo retirado ao sono. Além da dimensão da perda de produtividade no PIB, também será importante conhecer se há reflexos em termos de doenças (e creio haver alguma evidência nesse sentido) e de satisfação.

Conhece algum estudo em Portugal que tenha avaliado  o efeito das perturbações do sono em termos económicos?

Não conheço, e esse tema também está ausente das temáticas da conferência de economia da saúde deste ano em Portugal. Provavelmente é um bom tema para lançar para discussão futura.

O tempo dedicado às novas tecnologias e às redes sociais estão a degradar muito o sono, segundo referem especialistas em medicina do sono. Como vê este problema do ponto de vista económico e da produtividade?

Se houver realmente uma relação de causalidade entre privação de sono e produtividade, teremos um custo na produtividade. Mas a utilização das redes sociais e das novas tecnologias também pode ser problemática nos locais de trabalho, ou se bem feita potenciar a produtividade. Além do efeito de satisfação que possa produzir. Os efeitos económicos vão provavelmente muito além do que possa ser o efeito na produtividade via sono.

Muitos políticos admitem que dormem pouco. Preocupa-o face às decisões essenciais que tomam?

Sim. Sobretudo havendo perda de capacidades analíticas e discernimento com a privação do sono, levando a decisões mais impulsivas.

O que pensa da expressão  Deus não dorme?

Apenas uma expressão de presença constante atribuída a Deus.

Costuma ter insónias? Adormece facilmente? É mais “coruja” ou “cotovia”?

Não costumo ter insónias. Adormeço, geralmente, em cinco minutos ou menos. Sou mais cotovia, desde sempre. A manhã fresca, com a luz a surgir,  tem muito mais interesse que a noite escura.

O que o faz perder o sono?

É curioso ter que pensar nisso. É raro perder o sono. A situação mais comum é provavelmente a preocupação com ter que acordar cedo, mais cedo que habitual, por conta de algum compromisso, normalmente viagens em que se tem de apanhar avião às seis da manhã e tenho o receio de o despertador não funcionar. Tudo o resto em geral não me impede de adormecer rápido.

Houve momentos da sua vida em que o sono tenha sido bom conselheiro? Em que medida o ajudou?

Em geral, dormir bem sempre foi bom conselheiro. Seja para tomar decisões seja para acabar trabalhos em curso, prefiro descansar e acordar cedo para retomar. Muitas vezes confirma a intuição inicial, com o descanso de não serem decisões a quente. Noutras ocasiões, muda a perspectiva, normalmente reduzindo a importância do problema em causa.

Lembra-se de alguma história pessoal ou profissional divertida relacionada com o sono?

Nada de especial, a minha vida é bastante previsível e pouco risível. O mais próximo de “divertido” terá sido eu ter adormecido a ver um dos debates políticos do ano, e ter que manifestar a minha incapacidade, no dia seguinte, em comentar o que foi dito durante os 30 minutos de sesta…

O episódio mais caricato sucedeu quando numa aula uma aluna dinamarquesa caiu com a cabeça sobre a mesa, testa no tampo, corpo bem alinhado, e dormiu uma hora e meia. Era de manhã, e na noite anterior ocorreu uma festa na faculdade. Por falta de hábito com os nossos horários, ou por hábito com os dela, só se moveu quando e porque tivemos que deixar a sala. Volta e meia há alunos que dormem nas aulas, mas na primeira fila e daquela forma imediata e prolongada não surge muitas vezes.

Pode contar-nos um sonho ou pesadelo  fantasioso que tenha  tido?

Também neste aspecto não tenho nada de extraordinário, nem em sonhos bons nem em sonhos maus, que seja provavelmente diferente do que a maioria das pessoas tem. Pesadelos usualmente não guardo memória, só o sentimento de noite mal dormida. Sonhos agradáveis, com misturas de viagens de boa memória, antecipando outras e baralhando lugares. A travessia de pontes em que se começa em Barcelona e termina em Londres, ou se sai de uma cidade para se entrar logo noutra a muitos quilómetros de distância. Talvez por isso tenha gostado do filme “Meia noite em Paris”, tem uma dimensão de sonho que me é familiar.

 

 

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