“O meu novo romance está intimamente ligado a um sonho que tive há 30 anos”

Richard Zimler

Richard  Zimler, escritor e jornalista norte-americano, naturalizado português e a viver no Porto, revela em primeira mão ao iSleep o seu novo romance, “Evangelho Segundo Lázaro”, que será lançado em 2016 em Portugal. É uma história do ressuscitado Lázaro, amigo de Jesus, inspirada num sonho de Zimler com seu irmão mais velho Jerry, que morreu de SIDA em 1989.         

 

Nos seus livros, o sono e o sonho têm sido motivo de inspiração? 

É muito curiosa a sua pergunta, e uma grande coincidência, porque o romance que acabei de escrever, o Evangelho Segundo Lázaro, que vai sair em Portugal em 2016, está intimamente ligado a um sonho que tive há quase 30 anos.

Pouco depois da morte do meu irmão em 1989, vítima de SIDA, sonhei que ele tinha regressado. Andava pelo pátio de um casarão em pedra onde eu estava como convidado. Caminhava em direcção a uma dependência da casa nas traseiras.

Vi-o entrar e sair quase imediatamente. Estava com uma expressão muito triste. Descobri que, embora  pudesse falar e soubesse quem eu era,  era incapaz de mostrar qualquer emoção que não fosse tristeza e desânimo. Tinha consciência que morrera e regressara à vida mas também estava ciente que estava muito diminuído e que nunca iria recuperar todas as emoções do homem que tinha sido.

No sonho, a sua expressão de tristeza era exactamente a mesma que  me mostrou tantas vezes quando o fui visitar ao hospital.

Ele não me disse como havia regressado à vida. E não me ocorreu perguntar-lhe. Não me aventurei a entrar na dependência da casa para ir ter com ele. De alguma forma, eu sabia que não o devia fazer.

Tive este mesmo sonho pelo menos duas vezes, no início dos anos 1990 e em 2006. Nesta última vez, o sonho deixou-me uma vez mais a imagem impressionante da expressão triste e perturbada do meu irmão. Sempre que o vira com aquela expressão no hospital fiquei convencido que ele pensava como era injusto morrer jovem.

Mais tarde, enquanto reflectia no sonho com o meu irmão, a figura de Lázaro do Novo Testamento entrou de rompante no meu pensamento. No Evangelho Segundo João, Lázaro  ressuscita de entre os mortos, ressuscitado pelo seu querido amigo Jesus.

Por que é que pensei em Lázaro? Não sei. Possivelmente porque tinha terminado há pouco tempo  o meu romance, “A Sétima Porta”, que me obrigara a pesquisar a história judaica e do misticismo durante muitos meses.

Reflecti sobre o que Lázaro teria sentido ao voltar a viver. De que maneira ele estaria mudado — ou diminuído, como o meu irmão – pela experiência da morte?

Um romance sobre Lázaro pareceu-me uma ideia bastante interessante.  No início de 2013, após terminar o meu romance “A Sentinela”, meti mãos ao trabalho. Após um período inicial de seis meses de pesquisa sobre a vida judaica na Terra Santa, e após acumular uma grande quantidade de notas sobre os documentos estudados,  comecei a escrevê-lo. Terminei-o dois anos depois, em Setembro passado, 26 anos depois do sonho com o meu irmão.

 

Estamos perante uma espécie de pré-lançamento do seu novo livro no iSleep. Não sabíamos de todo qual era o tema porque ainda não era público. É de facto uma coincidência…

O Evangelho Segundo Lázaro começa com Lazarus a sonhar que  é um rapaz de oito anos. Sonha com uma Águia-Deus que deve lutar contra fortes inimigos para salvar Jerusalém, sonha que é transformado por grandes incêndios numa criatura divina com asas. Ou seja, ele próprio torna-se num Deus-Águia.

No contexto do romance, tanto Jesus como Lázaro cresceram em Nazaré. Quando eram rapazes, Lazarus contou o seu sonho a Jesus e este espantou-se com o que ouviu. Percebe então que Lazarus poderia ser um bom companheiro e amigo. Mas Jesus tinha outra razão secreta para querer tornar-se amigo de Lazarus, que seria revelada apenas 28 anos depois, quando ambos já teriam os seus 36 anos.

Lázaro teve outros sonhos ao longo do romance que influenciaram o modo como se comportava e como via o comportamento dos outros. É uma personagem que é sobretudo influenciada por devaneios e visões, acreditando que estes devaneios e visões servem para nos guiar.

 

A literatura tem muitas referências ao sono e ao sonho. Qual a razão de tantos escritores os retratarem?

Penso que é por causa dos sonhos serem uma espécie de história. E os romancistas são contadores de histórias! Portanto, há uma ligação muito natural. Além disso, há uma longa tradição no Ocidente – que remonta ao Antigo Testamento, compilado há cerca de 2500 anos – em que os sonhos têm um significado  e  revelam verdades que de outra forma seriam difíceis de desvendar. Nesta tradição, os sonhos têm muitas imagens enigmáticas que precisam de ser decifradas. Há um forte elemento misterioso nos sonhos. Penso que muitos romancistas consideram isso atractivo.

 

A que horas gosta mais de escrever?

Acordo muito cedo, por volta das seis e meia da manhã e começo a escrever por volta das oito, depois do pequeno-almoço.  Estou muito mais desperto e com mais energia da parte da manhã. Geralmente trabalho até ao meio dia e depois almoço. Às vezes faço uma curta pausa para uma sesta e depois recomeço a escrever por volta das duas e continuo até estar demasiado exausto para não conseguir fazer mais nada. Normalmente trabalho entre seis e oito horas por dia. Costumava conseguir concentrar-me por períodos de tempo mais longos mas a minha resistência diminuiu com a idade.

 

Costuma acordar com uma ideia para um livro que esteja a escrever? Regista-a?

 Quando estou a escrever um romance, torno-me obsessivo com ele. Não consigo desligar-me das personagens e regressar à minha própria  vida! Por isso às vezes acordo a meio da noite ou de madrugada com uma ideia para um livro, que normalmente tem a ver com uma personagem ou as suas características. Também me acontece encontrar uma solução para o próprio enredo. Acordo e registo as minhas ideias num pedaço de papel que guardo ao lado do computador. Quando começo a trabalhar leio o que escrevi. Por vezes parece uma ideia sem sentido mas outras vezes é útil e acabo por a incorporar na história.

 

Qual a passagem literária sobre o sono ou o sonho que mais gosta?

Uma parte de ” O Sonho de uma Noite de Verão”, de Skakespeare: “Os amantes e os Homens loucos têm cérebros tão fervilhantes

Tais fantasias esculpidas, que apreendem Mais do que a certa razão já compreendeu.”

 

Penso que dorme mal e tem insónias quando está a preparar um livro ou a escrevê-lo. É assim?

Como já disse, fico obcecado com a narrativa dos meus romances. Tenho grandes dificuldades em adormecer durante todo o período de escrita, que pode prolongar-se dois ou três anos ou mais. Penso que não consigo adormecer e que no dia a seguir não vou ter forças suficientes para escrever.  Por vezes durmo só três ou quatro horas. Quando este estado se prolonga durante duas semanas ou mais, fico desesperado. Mas prefiro não tomar comprimidos para dormir pois acordo com sono e passo o dia seguinte sem energia. Penso que a solução ideal seria aprender a desligar-me do romance ao fim da tarde e afastar-me completamente da história e dos personagens antes de dormir mas não é fácil.

 

Disse numa entrevista que a memória já o salvou várias vezes…

É muito difícil manter  a narrativa de um romance na cabeça durante dois ou três anos. Estamos perante  um universo paralelo que só existe só na mente do romancista.  Daí a importância de uma excelente memória para saber todos os pormenores da cada capítulo e tudo encaixar bem na história. Por exemplo, o que uma personagem diz no capítulo 28 não pode contradizer o que disse no capítulo 11. Tem que haver uma coerência.

Em virtude da minha excelente memória,  quando leio a tradução portuguesa de um dos meus romances, consigo distinguir uma frase que não corresponde bem à do texto original.  É como se tivesse todas as frases do romance na minha cabeça. É-me muito útil quando faço as revisões da tradução.

 

O Richard Zimler tem dupla nacionalidade, norte-americana e portuguesa. Os hábitos de sono dos portugueses são muito diferentes dos americanos?

Sim, são muito diferentes.  O português deita-se mais tarde, frequentemente às duas ou três da manhã, mesmo as pessoas mais  velhas. Em consequência, acordam muito tarde.  Os norte- americanos,  em geral, deitam-se às 22 ou 23 horas e acordam cedo.

Outra diferença é que os portugueses conseguem beber café à noite sem lhes afectar o sono. Do que conheço, poucos norte- americanos têm esse hábito (ou talento!).

 

É especialista em religião comparada. Se tivesse de identificar uma grande semelhança e uma grande diferença entre o cristianismo, o judaísmo e o islamismo quais seriam?  

São as três religiões monoteístas, ou seja, os seus seguidores acreditam num só Deus. Acreditar num único Deus é, por exemplo, o primeiro dever (“mitzvah”) do judaísmo. Uma grande diferença talvez resida na importância que o judaísmo – no Antigo Testamento e noutros livros sagrados – atribui a um Deus com uma vida emocional muito dinâmica, ainda que pouco coerente. O Deus do judaísmo, apesar de ciumento, raivoso e vingativo é carinhoso, reconfortante e protector. Exibe um leque de emoções e comportamentos, à semelhança dos seres humanos!

 E em relação à forma como encaram o sono?

O Antigo Testamento dá grande importância aos sonhos e à interpretação de sonhos, dois milénios e meio antes de Freud!  Por exemplo, o famoso sonho de José que aparece no Gênesis:  “Teve José um sonho, que contou a seus irmãos; por isso o odiaram ainda mais.  E disse-lhes: Ouvi, peço-vos, este sonho, que tenho sonhado: Eis que estávamos atando molhos no meio do campo, e eis que o meu molho se levantava, e também ficava em pé, e eis que os vossos molhos o rodeavam, e se inclinavam ao meu molho.”

A interpretação que José dá a este sonho muda a sua vida e a vida dos seus irmãos.

A Visão de Ezequiel de um carro voador através do céu é também uma história muito importante no Antigo Testamento, particularmente para os judeus místicos da Antiguidade e Idade Média. Eles costumavam descrever suas viagens místicas com a imagem de que “andavam no carro de Ezequiel”. Na verdade, uma das primeiras escolas do misticismo judaico é designada de Merkabah, o que significa carruagem, exactamente porque falavam muitas vezes das viagens no carro de Ezequiel.

 

A Torá tem alguns preceitos sobre o sono, como por exemplo no Shavuot ficar acordado à noite para estudar a Tora? Na sua família ou na comunidade judaica de Nova Iorque  estas práticas eram seguidas? 

São seguidas pelos judeus ortodoxos em Nova Iorque e em todo o mundo, embora os judeus laicos ou “reformistas”, mais modernos, raramente sigam estes preceitos.  Os meus pais eram laicos. Íamos raramente à sinagoga e nunca dizíamos as orações, embora celebrássemos as festas judaicas em casa. Tenho memórias maravilhosas da deliciosa comida preparada pela minha mãe para o jantar ritual da Pessach, a nossa comemoração e evocação do Exôdo.  Eu é que preparava   sempre o haroset, uma pasta feita de nozes, maçãs, vinho doce e canela que simboliza a argamassa utilizada pelos judeus para construir as pirâmides do Egipto.  

 

Estudou na famosa Universidade de Stanford. Com que impressões ficou? Seria possível um campus semelhante em Portugal?

Adorei a experiência de tirar o meu mestrado em jornalismo na Universidade de Stanford, principalmente porque os meus colegas eram muito inteligentes e entusiastas.  Queríamos aprender, ser bons jornalistas, queríamos mudar o mundo! Faz toda a diferença. Ainda mantenho contacto com quatro dos meus colegas. Encontro-me com eles em Nova Iorque quase todos os anos.

Não sei se seria possível ter um campus semelhante em Portugal, porque Stanford  é uma das instituições mais prestigiadas do mundo,, estando no ranking das cinco melhores universidades do mundo, juntamente com Harvard e Oxford.  Nunca me esqueço que o júri da Universidade Nova da Lisboa recusou reconhecer o meu mestrado em jornalismo pela Universidade de Stanford. Os membros do júri tiveram dúvidas sobre a qualidade do programa da Stanford!  Não estou a brincar!  O reitor teve que reunir uma segunda vez para eu conseguir o reconhecimento.

 

O que pensa  da expressão “Deus não dorme”?

Será verdade? Não sei.  Aplicar o verbo “dormir” a Deus não me parece adequado. Nao tem grande signifcado para mim. É como dizer “o universo não dorme”.

Mas como nós, humanos, dormimos e, segundo o Antigo Testamento,  somos feitos à imagem de Deus, talvez signifique que Deus também faz uma sesta de vez em quando.

Uma ideia Hindu de que gosto muito é que o nosso universo é um sonho de Vishnu. É um tema frequentamente tratado na arte hindu.

Já houve situações na sua vida em que o sono tenha sido bom conselheiro? Em que medida o foi? 

Os meus sonhos sobre narrativas possíveis para os meus romances têm sido bastante úteis.  Como já referi, dão-me ideias para o enredo e para as personagens.  Às vezes solucionam problemas que surgem à medida que escrevo o livro.

Já sei que não adormece facilmente?  Considera-se certamente mais “cotovia” que “coruja”…

Sou mais cotovia. Não adormeço facilmente. Às vezes, devido à minha insónia, tenho que fazer uma sesta no dia a seguir. Não é propriamente um problema porque adoro fazer uma sestazinha.

Sei que também pinta…

Pinto entre os livros que escrevo. É para descontrair. Prefiro pintar  a pastel, pois não tenho muito jeito para o pincel.  Fiz todos os desenhos dos personagens para o meu livro “A Sétima Porta”. Pouca gente sabe disso pois não colocámos nenhuma referência no livro à autoria dos desenhos.

Também sei que gosta muito de desporto. O exercício físico melhora-lhe o sono?

Andar pelo menos uma meia-hora por dia é muito saudável.  Adormeço mais facilmente quando interrompo o trabalho ao computador para actividades fora da casa.  Não é fácil por causa da minha personalidade obsessiva. Às vezes não consigo abandonar o que estou a escrever, a minha narrativa, o meu universo paralelo!).

Tem alguma história divertida, pessoal ou profissional, com o sono ou a falta dele?

Uma vez, há muitos anos, tinha eu 14 anos, fiz uma viagem com o meu irmão mais velho pelas Montanhas Rochosas dos EUA e fomos a Salt Lake City ver um filme. Dormia mal nos parques de campismo porque não estava habituado . Então adormeci no cinema e comecei a ressonar. O meu irmão acordou-me uma vez mas não resultou. Quando ressonava pela segunda vez, o gerente obrigou-nos a sair da sala. Fiquei muito envergonhado…

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