“O meu relógio ocupa a noite toda”

Fernando Pessoa, através do seu heterónimo Alberto Caeiro, descreve uma noite de insónia em “O Guardador de Rebanhos”:

“Acordo de noite subitamente,
E o meu relógio ocupa a noite toda.
Não sinto a Natureza lá fora.
O meu quarto é uma cousa escura com paredes vagamente
brancas.
Lá fora há um sossego como se nada existisse.
Só o relógio prossegue o seu ruído.
E esta pequena cousa de engrenagens que está em cima
da minha mesa
Abafa toda a existência da terra e do céu…
Quase que me perco a pensar o que isto significa,
Mas estaco, e sinto-me sorrir na noite com os cantos da
boca,
Porque a única cousa que o meu relógio simboliza ou
significa
Enchendo com a sua pequenez a noite enorme
É a curiosa sensação de encher a noite enorme
Com a sua pequenez…”

Alberto Caeiro, in O Guardador de Rebanhos – Poema XLIV, Heterónimo de Fernando Pessoa

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