O sono de jogadores e treinadores de hóquei em patins durante o confinamento por COVID-19

O iSleep publica um estudo de Maria Raquel G. Silva, professora  associada de nutrição e dietética  da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade Fernando Pessoa, sobre o sono de jogadores e treinadores de hóquei em patins durante o confinamento:   

Nestes tempos difíceis que a Sociedade e o Desporto Portugueses e Mundiais atravessam, a prática de exercício físico, a alimentação e o sono são as pedras basilares do bem-estar geral e da manutenção da condição física de qualquer atleta de elevado nível desportivo. Estes aspetos são uma preocupação diária para os atletas e para as equipas técnica, clínica e diretiva que os acompanham.

Considerei importante apresentar este assunto na perspetiva de atletas e de treinadores de hóquei em patins de referência nacional e internacional durante este período de confinamento. Os participantes são representantes dos seguintes clubes ou entidades: OCBarcelos, FCPorto, SLBenfica, SportingCP, GSHTrissino, HCBraga, RibaD’AveOC, AJViana, ADValongo, CHCarvalhos, SCTomar, Federação Portuguesa de Patinagem, FCBarcelona, CUChile, CPVila-Sana, CPManlleu, AWLodi, Comité Olímpico do Chile

Desde já agradeço a participação de todos, e espero que regressem ao ativo, quando as condições de Saúde Pública assim o permitirem!

Numa análise muito breve do sono subjetivo desse grupo de 27 jogadores (5 mulheres e 22 homens) e de 9 treinadores de hóquei em patins, durante o confinamento pelo COVID-19, observou-se que a grande maioria dos atletas tem-se deitado (77,8%) e levantado mais tarde (81,5%) do que a hora habitual (antes do confinamento). Quase metade dos jogadores (48,1%) tem dormido pior e apenas 11,1% tem dormido melhor. O sono foi considerado de boa qualidade por 40,7% dos jogadores, suficiente por 37,0% e muito bom por 18,5%; um jogador considerou o seu sono insuficiente. Por seu lado, a maioria dos treinadores tem-se deitado à mesma hora (66,7%), 44,4% tem-se levantado à mesma hora ou mais tarde (33,3%). A maioria tem dormido pior durante o confinamento (55,6%) e a grande maioria classificou o seu sono apenas como suficiente (88,9%).

Desta forma é importante ter em consideração alguns aspetos nesta altura:

1. Manter um horário regular de deitar e de levantar.

Neste período pode ser comum que os atletas e os treinadores, devido a preocupações de diversas índoles, deitem-se e levantem-se mais tarde do que era habitual.

Por exemplo, Helder Nunes (FCBarcelona) tem-se deitado à mesma hora, de forma a criar uma rotina de treino e de refeições, mas não tem conseguido adormecer mais cedo, apontando possíveis causas, tais como: não dispender a energia habitual, não andar tão cansado como se estivesse a treinar, ou talvez, o stress de não poder fazer o que mais gosta. Reinaldo Garcia (FCPorto) tem-se deitado mais tarde do que o habitual, mas com o início das rotinas escolares dos filhos, considera que vai voltar ao horário normal. Também Ricardo Silva (OCBarcelos) tem-se deitado mais tarde em cerca de uma hora, e Rafael Costa (FCPorto) tem-se deitado normalmente à mesma hora ou pouco mais tarde. Também Rúben Sousa (SCTomar) tem-se deitado ligeiramente mais tarde, sendo importante que não seja demasiado tarde, como também indicou, pois no dia seguinte tem treinos a cumprir.

2. Não levar os problemas para a cama. Dormir é o melhor remédio!

Reinaldo Ventura (Trissino) tem dormido pior, porque sente os horários trocados, assim como, Maca Ramos (SLBenfica) e Tato Ferrucio (OCBarcelos). Francisca D’Onoso (UCChile) e Cata Flores (Vila-Sana) têm dormido melhor nalgumas noites, e noutras, pior. E Beatriz Gatez (UCChile) tem dormido melhor, de uma forma geral, mas tem sonhado muito mais e, por vezes, acorda cansada. Por seu lado, o sono de Fernanda Hidalgo (CPManlleu) tem-se mantido igual ao que era habitual.

Já dizia o povo: “a almofada é a melhor conselheira”. Embora nem sempre seja fácil deixar por umas horas, os problemas de parte, nesta altura, os atletas e os treinadores devem fazer um esforço no sentido de se entregarem ao sono, pois este tem propriedades e características ligadas ao sistema imunológico (e não só), que podem potenciar os mecanismos de defesa do organismo, tão importantes neste período de confinamento. É importante não esquecer que aos líderes das equipas estão acrescidas responsabilidades na gestão dos seus atletas, o que pode interferir com o seu sono, como é o caso de Paulo Pereira (OCBarcelos) e de Pedro Nunes, cujo sono piorou durante o confinamento, ou se manteve igual, como é o caso de Paulo Freitas (SportingCP). Contudo, este período também pode ser utilizado para recuperar e repor energia, aproveitando para o melhorar, como o caso de Nuno Resende (AWLodi) e de Hugo Silva (OCBarcelos).

3. “O sono é uma riqueza” já realça a ilustre Profª Doutora Teresa Paiva, pelo que, devemos respeitá-lo, assim como respeitamos os horários dos treinos e das refeições.

Quer atletas, quer treinadores classificaram maioritariamente o seu sono como suficiente ou bom.

Por exemplo, o sono de Cata Flores (Vila-Sana) tem sido suficiente e não bom, porque tem acordado cansada (o sono não tem sido rejuvenescedor). Por seu lado, o sono de Francisca D’Onoso (UCChile) tem sido apenas bom, pois os seus horários têm-se desregulado e, por isso, tem acordado ligeiramente cansada. O sono do treinador André Azevedo (AJViana) é suficiente à semana e bom ao fim-de-semana. O sono do treinador Camilo (Comité Olímpico do Chile) poderia ser mais profundo, e por isso, considera-o apenas suficiente. Já Gonçalo Alves (FCPorto), Reinaldo Garcia (FCPorto), Álvaro Morais (OCBarcelos), José Pedro (OCBarcelos) e Hugo Azevedo (RibaD’AveOC) classificaram o seu sono como muito bom.

Esta situação de confinamento é diferente, mas é idêntica para todos os atletas e treinadores, logo, há que rentabilizar o tempo para horas de treino, de descanso e para atividades lúdicas que proporcionem prazer. Há um mundo lá fora à nossa espera! E uma vida que se vive e que é para ser vivida Pós-COVID. E é para essa vida com treinos, jogos, adeptos, que os atletas e os treinadores têm que se preparar.

Legenda da Foto: Equipa do Óquei Clube de Barcelos 2019/2020

Maria-Raquel G. Silva

Professora  associada de nutrição e dietética  da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade Fernando Pessoa