O sono, de Jorge Luís Borges

 

borges

Impõe-nos sempre a noite a sua mágica
tarefa. Destrinçar o universo,
as infinitas ramificações
de efeitos e de causas, que se perdem
na vertigem sem fundo que é o tempo.
A noite quer que esqueças esta noite
teu nome, teus avós, teu sangue,
cada palavra humana e cada lágrima,
o que a vigília já pôde ensinar-te,
o ilusório ponto dos geómetras,
a linha, o plano, o cubo ou a pirâmide,
o cilindro ou a esfera, o mar, as ondas,
teu rosto na almofada, essa frescura
dos lençóis ainda novos, os jardins,
os impérios, os césares e Shakespeare
e o que é mais difícil, o que amas.
Curiosamente, um comprimido pode
extinguir o cosmos e erguer o caos.

 

 

Jorge Luis Borges, em A Cifra, antepenúltimo livro de poesia do escritor e poeta argentino, reunindo quarenta e cinco poemas escritos entre 1978 e 1981.

 

 

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