O Sono, de Murakami

murakami

“Na altura, aquela ‘espécie de insónia’ durou um mês inteiro. Durante  esse tempo todo, nunca consegui  ter uma noite de sono decente. Chegava a hora de ir para a cama, deitava-me e dizia para comigo: ‘Bom, agora vamos lá ver se dormes’. Bastava isso para ficar acordada de vez. A coisa funcionava, ato contínuo, como um reflexo condicionado. Quanto mais eu me esforçava por adormecer, mais lúcida ficava. Experimentei todos os métodos possíveis e imagináveis, desde beber qualquer coisa mais forte (álcool) a comprimidos para dormir, mas nada fez efeito.

Às primeiras luzes da manhã, finalmente, começava então a sentir uma certa sonolência, mas não se podia dizer que estivesse verdadeiramente a dormir. Era como se tocasse apenas com a ponta dos dedos nas franjas do sono. E durante todo aquele tempo a mente permanecia desperta. Sentia-me sonolenta, mas, num quarto ao lado, através de uma parede de vidro, a minha consciência não tirava os olhos de mim, vigilante. À luz da vaga claridade, conseguia sentir a insistência daquele olhar, a sua respiração, enquanto o meu corpo físico flutuava vagamente e se abandonava ao torpor. O meu corpo procurava dormir, enquanto a minha mente teimava em ficar acordada.

Aquela espécie de semi-sonolência prolongava-se por todo o dia. Tinha a cabeça sempre vaga, os pensamentos nebulosos. Não conseguia avaliar com precisão a distância que me separava dos objetos, o peso ou a consistência das coisas. O torpor apoderava-se de mim a intervalos regulares, como uma vaga, enquanto me encontrava sentada no metro, na sala de aulas ou à mesa do jantar. A minha mente distanciava-se do meu corpo. O mundo começava a oscilar sem fazer barulho. Tudo me caía das mãos, o lápis, o garfo, a mala. Só tinha um desejo, que era deitar-me e dormir. Nada a fazer. O estado de vigilância nunca me abandonava. Sentia a sua sombra gélida. Eu era a minha própria sombra. «Estranho», pensei no meu entorpecimento, «encontro-me no interior da minha própria sombra.

Caminhava, comia, conversava sempre sem que aquele estado de letargia me abandonasse. O mais surpreendente, no entanto, era que ninguém se dava conta da minha condição. Só naquele mês perdi quinze quilos. E, contudo, nem uma só pessoa, entre familiares, amigos ou companheiros de ofício, se dignou prestar atenção ao facto de eu, na prática, passar pela vida em estado de vigília.”

 

in Sono, Haruki Murakami, edição Casa das Letras

 

 

 

Comments are closed.