“O sono deles e o sono delas”

Margarida Gaspar de Matos, Psicóloga Clínica e da Saúde, Psicoterapeuta (OPP) e Professora Catedrática da Universidade de Lisboa, na Faculdade de Motricidade Humana e no Instituto de Saúde Ambiental, escreve um artigo para o iSleep sobre as diferenças no sono entre homens e mulheres.

“É difícil determinar com exatidão a necessidade adequada de sono que cada um de nós necessita, mas está comprovado que um sono perturbado compromete o nosso funcionamento, tanto a má qualidade do sono em geral, como a dificuldade em adormecer, acordar durante o sono, ou acordar demasiado cedo de manhã

Esses aspectos podem resultar em sonolência diurna e trazer dificuldades no dia-a-dia. Em vários estudos uma fraca qualidade de sono foi mais associada ao sexo feminino e à existência de perturbações da ansiedade e depressão. Nos adolescentes uma fraca qualidade de sono foi associada ao excesso de tempo de ecrã, ao consumo de álcool e tabaco, a uma alimentação inadequada, ao sedentarismo, a sintomas físicos e psicológicos causadores de mal-estar, à violência e ao excesso de peso.

O que estes estudos em geral não esclarecem é a sequência temporal destas associações. As mulheres têm em geral pior sono, mas quanto aos restantes aspectos, será que as pessoas com ansiedade e depressão dormem pior, ou será que é quem tem um sono pior que pode por isso, agravar a ansiedade e a depressão? Os adolescentes sedentários, que abusam do tempo de ecrã, com má alimentação, com sintomas de mal-estar físico e psicológico, os consumidores de álcool e tabaco, os com excesso de peso, ou mais violentos ou expostos a mais violência, terão pior sono? Ou será o sono inadequado que agrava as situações referidas?

Durante a adolescência, o relógio circadiano começa a mudar para mais tarde, ou seja, há um atraso de fase. Um factor importante que influencia o sono dos adolescentes são os horários das aulas, o horário de início da escola.  Alguns fatores psicossociais como a exposição à luz e o tempo de ecrã à noite também têm um papel essencial no atraso de fase dos adolescentes.

Desde a adolescência, as mulheres relatam mais queixas de sono do que os homens. Alguns autores apontam alguns marcos hormonais onde esta diferença entre homens e mulheres se agrava: na puberdade, no ciclo menstrual, na gravidez e na menopausa. Os mecanismos subjacentes que podem explicar as diferenças entre os sexos não são claros. Mas a maturação biológica, os fracos níveis de atividade física, uso excessivo de equipamentos eletrônicos, os inadequados hábitos alimentares e o consumo de substâncias, podem explicar em grande parte estas diferenças.

Sugere-se que os problemas de sono das mulheres estejam relacionados com a depressão e ansiedade, mas na verdade se igualarmos estas condições, as mulheres continuam a apresentar mais problemas de sono do que os homens. Os homens só apresentam um efeito agravado quando há vulnerabilidade socio-económica. Vários estudos apontam que as mulheres tendem a apresentar uma maneira menos optimista de lidar com a vida, e têm preocupações mais frequentes e mais intensas, quer sobre questões pessoais, escolares, laborais, sociais e familiares. Outros estudos defendem que em situações controladas laboratorialmente, não se registam diferenças entre os sexos nos padrões de sono, mas que as mulheres descrevem o sono que acabaram de ter, como pouco ou pouco reparador. Isto seria um viés na percepção e não uma diferença real de sexo nas características do sono.

No entanto, se as mulheres relatam (e convivem com) uma menor percepção de bem-estar, associada a fracos padrões de sono, não importa se é uma realidade ou uma percepção, o mal-estar instala-se. Este factor já foi associado a uma iniquidade de género que sobrecarrega as mulheres com uma maior carga de trabalho físico e mental, e que inclui a sua atividade laboral, a gestão do convívio com familiares e amigos, o encargo com a sua casa, marido e filhos. Esta carga mental continuada de planeamento e sua execução constitui um  “peso laboral” constante, provocando situações de stresse acrescido, falta de qualidade de vida, ansiedade, depressão, falta de tempo para si e para descomprimir, e problemas de sono.

Apesar da genderização dos padrões de sono, algumas semelhanças podem ser encontradas, principalmente no que se refere ao consumo de álcool e ao tempo de televisão, que foram associados à fraca qualidade do sono, em ambos os sexos”.