“A crise económica aumentou muito os problemas de sono dos portugueses”

Marta Gonçalves, presidente da Associação Portuguesa do Sono,  psiquiatra, especialista em medicina do sono, defende a criação de uma cadeira do estudo sono nos cursos de medicina e diz que se justifica plenamente a Ordem dos Médicos criar formalmente a especialidade do sono. Na sua prática clínica tem a percepção que “a crise económica aumentou muito os problemas de sono dos portugueses”. Sobre os nórdicos refere que cometem muito menos “erros de higiene do sono” que os portugueses.

Que evoluções destacaria na área do sono em Portugal nos últimos 20 anos?

A nível do público em geral, destacaria um crescente conhecimento sobre a importância do sono nas suas vidas e nesse sentido uma maior procura de consultas especializadas numa fase muito mais precoce.

No que respeita  aos profissionais de saúde existe um interesse crescente na diferenciação nesta área, sendo prova disso a criação recente pela Ordem dos Médicos da Competência em Medicina de Sono.

A nível do ensino pós graduado é de destacar o primeiro Mestrado em Ciências do Sono na Faculdade de Medicina de Lisboa, coordenado pela Professora Teresa Paiva, que foi na altura pioneiro a nível internacional.

Mais recentemente, em 2011 foi criado também  o módulo de Medicina de Sono, no Doutoramento de NeurocIências e Psiquiatria clínica na Faculdade de Medicina do Porto, coordenado por mim.

E o que falta fazer que seja decisivo?

Na minha opinião, seria importante integrar a cadeira de Medicina do Sono nos vários cursos de Medicina para que o conhecimento nesta área comece a fazer parte das competências do médico recém- formado.

 Parece inegável que os portugueses estão mais sensibilizados para as questões relacionadas com o sono. Mas diria que este maior interesse aumentou os comportamentos de higiene do sono e se traduziu num melhor dormir? 

Apesar de haver maior sensibilização e conhecimento em relação ao sono, infelizmente não me parece que os comportamentos de higiene de sono estejam a ser implementados de forma eficiente, traduzido num melhor dormir.

Em simultâneo existe um outro lado, que se sobrepõe a esse maior conhecimento em relação ao sono. O  estímulo constante para uma maior competitividade, com necessidade frequente de trabalho fora de horas, o uso de computadores e tablets à noite, sem regras, e a fácil entrada pela noite dentro particularmente nos jovens, geralmente acompanhados por um uso excessivo de estimulantes, acabam no seu conjunto por dificultar a aplicabilidade prática das boas regras da higiene de sono.

Em virtude da sua experiência clínica, que diferenças existem entre um doente de há 20 anos com insónias e perturbações do sono e um doente dos tempos de hoje?  

O doente de hoje procura ajuda mais cedo, está muito mais informado e prefere claramente terapêuticas não farmacológicas.

Tem verificado que a crise económica aumentou em muito os problemas de sono dos portugueses?

Embora não tenha números nacionais representativos a esse respeito que me permitam falar do sono dos portugueses, baseada na minha percepção clínica diria que sim.

Penso que facilmente se compreende que uma crise económica desta dimensão, sem vislumbre do fim, que alterou não só expectativas pessoais como também as próprias estruturas familiares, gera sentimentos de impotência e desesperança condicionantes de níveis crónicos de stress. Na sequência disso, aumentam de imediato os níveis de ansiedade e o respectivo alerta em relação ao sono, que por sua vez facilitam o aparecimento ou agravamento da insónia.

E face à crise económica, as terapias cognitivo- comportamentais para os problemas do sono têm sido mais preteridas em relação aos medicamentos, em muitos casos de acção  mais rápida e constituindo solução mais barata? 

Eu não tenho essa percepção a nível da consulta especializada.  Até pelo contrário, considero que as pessoas estão mais receptivas às técnicas psicoterapêuticas pois também estão mais informadas dos seus benefícios a longo prazo e dos prejuízos de alguns dos medicamentos ditos para dormir.

Entrou no curso de Medicina num tempo político conturbado, logo a seguir ao 25 de Abril…. No Porto o ambiente era mais calmo que em Lisboa?

Embora eu tenha vivido nesse tempo apenas a realidade do Porto e não de Lisboa penso que o Porto foi de facto mais moderado.

Que professores mais a marcaram ao longo da carreira médica?

O Professor Rui Mota Cardoso, Professor Casimiro de Azevedo e Professor Sobrinho Simões

Trabalhou no Hospital Conde Ferreira, uma referência da psiquiatria portuguesa. Como foi a experiência? 

Em termos de aprendizagem clínica considero que foi uma experiencia excepcional, tive excelentes mestres que nunca esquecerei. Com eles aprendi muito do que sei a nível da psicopatologia, da comunicação em psiquiatria e o respeito pelo adoecer psiquiátrico.

Tem feito formação em vários países. Apercebeu-se de hábitos de sono e comportamentos de higiene de sono muito diferentes comparativamente a Portugal?

Existem hábitos de sono diferentes entre os países nórdicos e os mediterrâneos, nomeadamente nas horas de deitar e levantar, existindo a meu ver também de forma geral uma melhor educação para o sono e menos erros de higiene de sono, nos países nórdicos.

Essa melhor educação para o sono traduz-se na prática de que forma? E quando fala em menos erros de higiene do sono está a pensar em que tipo de comportamentos? 

Traduz-se por um melhor conhecimento sobre o sono, e nesse sentido, uma escolha de comportamentos mais saudáveis e menos erráticos em relação ao sono. Refiro-me a um menor uso de bebidas cafeínadas pela tarde e noite, menor uso do computador, tablets e telemóveis a horas tardias ou mesmo na cama e uma menor frequência das noitadas e directas tão vulgares na nossa juventude e já aceite pela maioria como um comportamento perfeitamente normal.

Fez formação na famosa Universidade de Stanford. Que impressão lhe causou a instituição. Seria alguma vez possível um campus semelhante em Portugal?

A minha experiência na Universidade de Stanford foi fantástica e abriu os meus horizontes na Medicina de Sono quando esta área ainda estava pouco desenvolvida em Portugal.  Muitos dos meus projectos actuais têm na sua base alguma inspiração do Centro de Medicina de Sono de Stanford, onde estagiei.

Participa na formação em competências de sono envolvendo psiquiatras e médicos de outras especialidades. É cada vez mais importante haver uma formação específica no sono junto dos médicos em geral?

Sem dúvida que sim. São os médicos de Medicina Geral e Familiar, como primeira linha de contacto com o doente,que poderão marcar a diferença no diagnóstico precoce das diversas patologias de sono. Nos casos mais complexos são eles que poderão fazer um encaminhamento precoce dos doentes para centros especializados. Considero ser esta uma área de investimento preferencial numa perspectiva de saúde pública.

E faz cada vez mais sentido reconhecer-se a especialidade do sono? 

Sim, a especialidade de Medicina de Sono justifica-se plenamente pois a diversidade, interdisciplinaridade e complexidade dos conhecimentos em sono obrigam já a uma dedicação e diferenciação na área dignos de uma especialidade. Penso que em breve será uma realidade!

Mantém-se como presidente da Associação Portuguesa do Sono. Qual o balanço da acção da APS? E o futuro?

Mantenho-me no cargo há sete anos, o que corresponde a dois mandatos de três anos. No último ano continuei em funções. Penso ter feito o meu papel com muito empenho, dedicação e entusiasmo, mas agora é necessário renovação, são necessárias novas e diferentes ideias.

O balanço que faço é muito positivo, foram mandatos exigentes de grande atividade e alguma visibilidade internacional e em que aprendi muito. Na altura hesitei em assumir a presidência da APS mas acho que valeu a pena.

Coordenei uma campanha que jamais esquecerei e que constituiu um dos maiores desafios da minha vida- a WAKE UP BUS. O projecto incluiu uma campanha de alerta realizada em  etapas sucessivas em 12 cidades europeias, um estudo sobre sonolência ao volante e acidentes rodoviários em 19 países Europeus, já publicado no Journal of Sleep Research, e um simpósio sobre o tema no Parlamento Europeu.

Dando unidade e corpo a todo o projecto, um grupo de 6 pessoas percorreu as diversas cidades envolvidas num autocarro partindo do Porto até Bruxelas de 3 a 15 de Outubro de 2013.

Em relação  ao futuro da Associação espero que nos traga ainda muitas surpresas agradáveis, como inovação na área e alguma visibilidade a nível internacional, para que Portugal seja notado sempre por boas razões. Penso que a Associação também poderá vir a ter um papel de grande importância, no que respeita ao futuro, estimulando trabalhos científicos e mais publicações portuguesas na área do sono.

Qual a passagem literária que mais gosta referente ao sono ou ao sonho?

O homem é do tamanho do seu sono”, do   Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa

 

 

 

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