“O quarto foi invadido pela tecnologia”

Dulce Neutel, médica neurologista e especialista em medicina do sono no Cenc-Dra Teresa Paiva, continua a publicação no iSleep de um conjunto de oito artigos sobre o sono intitulado “O sono nos dias de hoje” . Eis o segundo:

“O nosso sono foi perdendo ao longo das últimas décadas capacidade reparadora. Passámos a
acordar cansados, por vezes até mais cansados do que quando fomos para a cama.
Para além de dormimos menos horas do que a nossa necessidade real de sono, um dos
problemas sérios é que levamos para a cama os problemas do quotidiano. Muitas vezes
porque não temos tempo para pensar nesses mesmos problemas noutra altura do dia –
porque à noite na cama há silêncio, ninguém nos chama com a mesma frequência que ocorre
durante o dia, porque temos disponibilidade mental para pensar. A cama, o último refúgio,
começa então também a ser invadida pelo dia.
Na verdade, para além dos pensamentos, o quarto foi invadido também pela tecnologia.
Inicialmente apenas pela televisão. Se em gerações passadas o televisor existia somente na
sala e era um entretenimento familiar após o jantar, rapidamente passou a ser de uso
exclusivo no quarto de cada um dos membros da família. E passou a ficar ligada até cada vez
mais tarde. Posteriormente, ocorreu a invasão da própria cama pela tecnologia – pelo
telemóvel, pelo tablet ou até mesmo o computador. E, actualmente, mesmo quando a luz se
desliga, para além dos pensamentos que finalmente começam a tomar conta da nossa mente,
muito porque não lhes foi dada oportunidade para aparecerem em qualquer outra altura do
dia, surge o vibrar intermitente em cima da mesa de cabeceira ou mesmo no chão – uma
mensagem, um e-mail, um post ou um like chegam ao telemóvel adormecido ao longo de toda
a noite.
Assim, se inicialmente íamos para o quarto dormir, ao longo dos últimos anos ensinamos ao
nosso cérebro que afinal o quarto é um espaço muito útil para fazer mais do que dormir. E mal
entramos no quarto o cérebro desperta. Sabe antecipadamente que as próximas horas são de
atividade de vigília. Mesmo se uma pequena sesta já foi feita no sofá da sala e até caminhamos
ensonados até ao quarto ele desperta quando lá chega. Mais, se a sesta acontecer de facto,
esta até ajudará a que o cérebro se mantenha mais acordado após um pequeno descanso
muitas vezes bastante reparador. Da mesma forma que desperta se for chamado para uma
reunião com o seu responsável no trabalho – o seu cérebro reconhece de imediato as
circunstâncias que se relacionam com uma ida ao gabinete do chefe.
Desta forma, de manhã o cansaço far-se-á sentir: como vimos o tempo na cama a dormir foi
insuficiente e o sono não foi reparador. A ansiedade por uma noite bem dormida começa
então a crescer… o que dificulta ainda mais o sono – um quadro de insónia crónica começa a
instalar-se. Ou dito de outra forma, a dificuldade em iniciar o sono e em manter-se a dormir,
ou a facilidade com que começa a acordar antes do despertador tocar, com consequências no
rendimento do seu trabalho no dia seguinte, começam a surgir com uma frequência cada vez
maior. Se no início estas situações só aconteciam quando algo de muito grave ou muito
preocupante acontecia na vida, passaram a existir todas as semanas e depois várias vezes por
semana. Durante meses.
Na verdade, também há quem tenha o quarto invadido por tecnologia e mesmo assim durma
todo o tempo que disponibiliza para o fazer. Porque só algumas pessoas sofrem então de
insónia crónica em circunstâncias ambientais semelhantes? Uma das teorias sobre a
fisiopatologia da insónia crónica refere que são necessários fatores que predispõem para a
doença, habitualmente traços de personalidade específicos, nomeadamente o perfeccionismo.

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É igualmente frequente um acontecimento precipitante – um evento de vida como a morte de
um familiar, a perda de emprego ou um divórcio. Posteriormente, os fatores perpetuadores
irão manter o problema ao longo do tempo.

Franz Kafka, o escritor, começou a ter insónia na sua terceira década de vida e o problema
permaneceu durante 15 anos até falecer de turberculose. A sua insónia caracterizava-se por
dificuldade em manter-se a dormir e por despertares muito matutinos. Recentemente
caracterizada, a insónia crónica de Kafka originou-se e foi mantida pelo ciclo vicioso
constituído por fatores predisponentes, precipitantes e perpetuadores. Assim, como fatores
predisponentes para a insónia crónica os seus traços de personalidade – insegurança, auto-
crítica exagerada; como fatores precipitantes as suas preocupações excessivas –
particularmente focadas nas suas relações amorosas e na sua carreira literária; os fatores
perpetuadores relacionavam-se com os seus maus hábitos de sono na tentativa de compensar
o cansaço provocado pelas noites mal dormidas, como permanecer tempo excessivo na cama
durante o fim de semana e as férias. Para além de deliberadamente ter escolhido passar a
escrever à noite pela sua necessidade de silêncio absoluto – “Perhaps there are other forms of
writing, but I Know only this kind; at night, when fear keeps me from sleeping”.

A higiene de sono inadequada de Kafka resultou num estado de privação de sono crónica. Há
até quem especule que foi esse estado que levou a um sistema imunitário deficiente que
contribuiu para o desenvolvimento de tuberculose.

Depois de alterarmos o nosso comportamento em relação ao sono e de passarmos a pôr em
causa a real necessidade de dormir sobrepondo-lhe outras necessidades como o trabalho, a
privação crónica de sono passou a ser uma atitude cada vez mais frequente na sociedade. O
desenvolvimento da sociedade alterou o comportamento da humanidade de forma que os
indivíduos com determinados traços de personalidade face a eventos de vida emocionalmente
muito exigentes deixam de conseguir ultrapassar adequadamente o período inicial de
adaptação e deixem de dormir, desenvolvendo insónia crónica – uma doença em franco
crescimento nas sociedades mais desenvolvidas. As consequências a longo prazo deste
problema estão ainda por esclarecer na sua totalidade mas claramente o impacto no
quotidiano é visível todos os dias quer no rosto das pessoas com quem trabalhamos, vivemos
ou em nós próprios.

Como muitos dos doentes com insónia crónica, também Kafka procurou solução para a sua
doença em medicinas alternativas e fármacos promotores de sono mas sempre se recusou a
mudar os seus hábitos de sono. Mais, tal como muitas outras pessoas, era alguém que tinha
biologicamente a sua hora de adormecer e levantar mais tardia do que o habitual – parecia ser
um vespertino, um “mocho”. Numa sociedade com uma orientação matutina, quem é
vespertino acaba por ser visto como preguiçoso, atrasado crónico ou simplesmente
irresponsável. Como é então o sono do mocho ou de uma cotovia?”

Dulce Neutel, MD
Neurologista
Sleep Somnologist pela European Sleep Research Society

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