O sono nos dias de hoje

Dulce Neutel, médica neurologista e especialista em medicina do sono no Cenc-Dra Teresa Paiva, inicia a publicação no iSleep de um conjunto de oito artigos sobre o sono. Eis o primeiro.

“Que importância tem o sono? Porque temos de dormir? Que valor atribuímos nós ao
sono? É inquestionável que necessitamos de dormir para viver e que é uma necessidade
básica e insubstituível – de outra forma porque passaríamos 1/3 das nossas vidas a
dormir? Então porque deixámos nós de dormir? Porque tratamos o sono como um
inimigo?
Dormimos por múltiplas razões e sabemos atualmente que o sono é fundamental no
processo de restauração, de conservação de energia e de consolidação de memória. E,
começámos a dormir menos porque nos foram dadas condições que nos permitiram
continuar acordados quando deveríamos estar a dormir. Em primeiro lugar, o
surgimento da luz elétrica que permitiu ser dia 24 horas por dia. Surgiu assim a
oportunidade de continuarmos a trabalhar até depois do sol se pôr. A sincronização com
o sol, que até então existia de forma inultrapassável, é fundamental para dormirmos
bem.
E depois de quebrarmos uma relação de milhares de anos com o sol passamos a atribuir
uma conotação negativa ao ato de dormir seja por considerarmos uma perda de tempo,
uma manifestação de preguiça ou até mesmo colocada em causa a sua necessidade para
a vida normal. O próprio Thomas Edison fez provavelmente a primeira grande
campanha publicitária, ao defender a diminuição do tempo total de sono, criando a ideia
da escolha simples que todos deveríamos fazer entre o trabalho produtivo e o descanso
improdutivo. Quatro horas de sono seriam mais do que suficientes forçando a mesma
restrição aos seus empregados. Fazia entrevistas de trabalho às 04h00m da manhã e
chegou mesmo a afirmar “There is really no reason why men should go to bed at all”, em
1914.
Assim, desde o início do século XX, recorrendo ao processo Darwiano em diversas
circunstâncias são selecionados aqueles que têm uma maior tolerância a dormir pouco,
ou dito de outra forma, à privação de sono. Se há quem boceje, fique lentificado ou até
mesmo adormeça numa reunião, também há quem quando dorme pouco fique mais
conversador, mais agitado quer do ponto de vista mental quer do ponto de vista do
comportamento, mimetizando até um aumento de energia com um menor número de
horas de sono. Mas na verdade são raros os casos de pessoas que têm uma necessidade
de sono igual ou inferior a cinco horas por dia. O erro está em confundir a real
necessidade de horas de sono e a capacidade de tolerar a privação de sono. Se há quem
durma cinco horas e funcione bem no dia seguinte não significa de imediato que essa
pessoa apenas tem necessidade de dormir cinco horas por dia. Ou tão pouco significa
que quem não tolera bem uma noite de sono inferior às suas necessidades, como é o
caso de pessoas que ficam irritáveis, com mais apetite ou com cefaleias no dia seguinte,
que são menos capazes ou mais preguiçosas. Da mesma forma, é fácil para algumas
pessoas passar várias horas em jejum enquanto para outras é totalmente impensável
passar mais de três horas sem comer. Querer ultrapassar as suas próprias necessidades
é igual a querer comprar um par de sapatos n.º 36 quando se calça o n.º 38 – até pode
aguentar umas horas com os sapatos pequenos mas as consequências irão sempre
aparecer. Se o tamanho do pé e do sapato que calça não é jamais posto em causa porque
é o tempo que dorme?

O tempo necessário de sono é único em cada indivíduo e muda ao longo da vida. Assim
como a tolerância à privação de sono e a capacidade de recuperar de uma noite, ou
várias noites, mal dormidas o são. E estas vão diminuindo com o envelhecimento. Por
isso “antigamente aguentava várias semanas a dormir seis horas por dia mas agora
não…”.

Embora haja quem possa tolerar ou recuperar bem de noites com poucas horas de sono,
as consequências de dormir menos do que as necessidades de cada pessoa são iguais em
todos os indivíduos tenham eles maior ou menor tolerância à privação de sono. Os
efeitos podem ser divididos em três grupos – curto prazo, como irritabilidade, aumento
do apetite, acidentes de viação; médio prazo, como alterações do humor; longo prazo,
aumento do consumo de álcool, cafeína ou até mesmo do risco de demência. Uma noite
com poucas horas de sono diminui a criatividade, aumenta a impulsividade e diminuí a
capacidade mnésica. De manhã quantos condutores fazem prova da sua noite mal
dormida?
Foi desta forma que a sociedade foi evoluindo dando cada vez mais oportunidades aos
indivíduos para dormir menos, reforçando a ideia de que é uma perda de tempo dormir
à medida que o mundo competitivo da economia mundial crescia e da tecnologia se
desenvolvia. O dinheiro nunca dorme, certo? Mas o ser humano necessita dormir, da
mesma forma que necessita comer ou respirar.
Atualmente, a luz já não se apaga nunca. O que aconteceu então ao nosso sono que por
ignorância desvalorizamos tanto ao ponto de deixarmos de dormir o número de horas
suficientes para o nosso bom funcionamento ficando acordados pela noite dentro e
colocando despertador para tocar cedo pela manhã?”

Dulce Neutel, MD
Neurologista
Sleep Somnologist pela European Sleep Research Society

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