“O tempo inútil é essencial para reflectirmos e fazermos escolhas”

A psiquiatra e especialista em medicina do sono do CENC, Ana Santa Clara, participou no Simpósio Internacional sobre Sono, Exercício e Saúde, que decorreu em 21 e 22 de novembro 2019, organizado pelo Instituto Politécnico de Setúbal em colaboração com o Hospital da Luz de Setúbal.

Ana Santa Clara fez uma intervenção que teve como tema a “Privação de Sono, falta de exercício físico e alimentação inadequada numa sociedade 24 horas”.

“Vivemos numa sociedade em que o tempo se dilui, as rotinas que outrora eram organizadoras do dia-a-dia e se constituíam em ritmos próprios da vida humana, com tempos de privacidade, tempos de auto-cuidados e tempos de lazer,  passaram a ser factores desorganizadores, num sistema global que não respeita a pessoa e o indivíduo”, disse a  psiquiatra e especialista em medicina do sono.  

“É uma sociedade 24 horas, em que o indivíduo está sempre contactável, incluindo à noite, nos fins de semana e nas férias”, acrescentou.   

“Há três rotinas diárias, que hoje são encaradas como luxos  a que nem todos têm direito, ou como modas que vão variando, mas raramente são vistas como factores imprescindíveis à manutenção da homeostasia. Estamos falar da privação de sono, da alimentação inadequada e da falta de exercício físico, que provocam desequilíbrios graves, físicos e mentais, e que não podem ser abordados, e muito menos tratados, isoladamente ou descontextualizados”, referiu.

Neste panorama, o stress é quase inevitável, entendido como “desequilíbrio, real ou percebido, entre as exigências das circunstâncias nas quais o indivíduo se encontra e a capacidade individual de adaptação a essas exigências”

“Stress que envolve sintomas cognitivos ao nível da memória, concentração e capacidade de decisão, sintomas físicos como cefaleias de tensão, fadiga, queixas em vários órgãos, colites, gastrites, infecções de repetição, sintomas emocionais, como irritabilidade, ansiedade, tristeza, depressão, privação do sono, ansiedade, isolamento social e alterações do comportamento alimentar”, adiantou a psiquiatra.

Ana Santa Clara também se referiu à “utilidade do tempo inútil, como tempo necessário à reflexão, que não se mede em produtividade nem se traduz em dinheiro”.

“Sem reflectirmos, não podemos fazer escolhas e sem fazer escolhas limitamo-nos a obedecer, sem termos juízo crítico”, acrescentou.

A psiquiatra alertou também para a necessidade de estabelecermos prioridades, fazermos “o controlo do stress, ponderarmos o uso do nosso tempo e mantermos e fomentarmos a rede de relações interpessoais fora do trabalho”.  

A médica e especialista em medicina do sono identificou ainda alguns paradoxos da sociedade em que vivemos.  

“Dorme-se pouco para trabalhar mais porque o rendimento é cada vez pior ou porque o trabalhador exemplar é o que não precisa de dormir e está sempre online”.

“Toma-se medicação para dormir e, de manhã, para acordar, diminuir a ansiedade ou mascarar a depressão , tomamos vitaminas para o cérebro”

“Seguem-se regimes alimentares restritivos mas frequentemente totalmente desadequados aos hábitos alimentares tradicionais equilibrados”.