“Obriguei-me a acordar”

O escritor espanhol Javier Marías conta-nos um pesadelo que teve no seu livro de crónicas “Quando os Tontos Mandam”.   

“Tive um pesadelo e ainda que não suporte a inclusão de sonhos nos romances ou nos filmes, como isto não é nem uma coisa nem outra, aqui vai resumido: era de noite e estava na fria cidade de Sória, na qual passei muitos verões da minha infância e onde depois, durante doze anos, arrendei um apartamento que me era particularmente caro e que deixei há três anos por causa de um Ayuntamiento sem escrúpulos. Ia a esse apartamento para ali dormir , mas dava-me conta de que já não tinha a chave e de que já não existia, agora convertido numa pizaria ou algo do género. Pensava então ir ao da minha infância, mas há mais tempo ainda que não o tinha. Um hotel, nesse caso, mas estavam todos cheios, e, além disso, não estava convenientemente vestido (abstenho-me de dar pormenores). A resposta à pergunta ‘Para onde irei’ foi a saída imediata daquela cidade e a tentativa de entrar noutras casas nas quais vivi. Uma de Barcelona, onde fui recebido por uma mulher, outra em Veneza, onde outra me acolheu, outra em Oxford, na qual passei dois anos, outra em Wellesley, um par de apartamentos que arrendei em Madrid há séculos. Já não existia nenhum, passaram a ser passado. Os lugares para os quais nos encaminhámos centenas de vezes depois de uma jornada, que ocupávamos com relativa tranquilidade, dos quais possuíamos as chaves, ‘subitamente’ já não estavam à minha disposição, tinham desaparecido. Se ponho ‘subitamente’ entre aspas é por uma razão: no sonho não havia lento transcurso do tempo, como acontece na vida; estava tudo comprimido, sobreposto, todos os meus ‘lares’ eram um e o mesmo, e em nenhum tinha cabimento. Obriguei-me a acordar, dava-me conta de que sonhava, mas não conseguia livrar-me da sensação de perda e de caducidade, de ver encerrados os sítios que noutras épocas estavam acessíveis e eram até certo ponto ‘meus’ (na verdade, nenhum o era, de nenhum tinha sido o proprietário, apenas inquilino ou convidado). Quando, já de pé, consegui repelir o mal-estar e o desamparo, não pude deixar de pensar nos milhares de pessoas para quem este sonho mau é uma verdade permanente. De todas as injustiças e desaforos, de todas as crueldades cometidas neste largo período, sob os governos de Rajoy e Zapatero, a maior talvez seja os despejos”. In Javier Marías, Quando os Tontos Mandam”, Relógio D’ Água, Lisboa 2018   

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