“Os que dormiam, sonhavam com o mar empurrando à sua frente vagas e seixos”

A escritora judaica Irène Némirovsky descreve as noites em Paris nos primeiros dias da ofensiva alemã, em Junho de 1940.

“Noite quente, pensavam os parisienses. Ar primaveril. Era noite em tempo de guerra, o alerta. Mas a noite esvai-se, a guerra está longe. Os que não dormiam, os doentes pregados à cama, as mães com os filhos na frente, as mulheres apaixonadas, olhos murchos pelas lágrimas, ouviam o primeiro clamor da sirene. Por ora, era apenas um sopro profundo, semelhante ao suspiro exalado por um peito opresso. Decorreram alguns momentos antes de o céu se encher por inteiro de clamores. Chegavam de longe, do fundo do horizonte, dir-se-ia que sem pressa! Os que dormiam, sonhavam com o mar empurrando à sua frente vagas e seixos, com a tempestade que abana a floresta em Março, com uma manada de bois correndo pesadamente, fazendo vibrar o solo com os cascos, até que o sono cedia por fim e o homem murmurava, de olhos ainda mal abertos: É  alerta?

Mais nervosas, mais vivas, as mulheres já estavam de pé. Algumas, depois de terem fechado janelas e portadas, tornavam a deitar-se. Na véspera, segunda-feira 3 de Junho, as bombas tinham caído pela primeira vez em Paris desde o início da guerra, mas o povo permanecia calmo. Contudo, as notícias eram más. Não se acreditava nelas. Também não se teria dado mais crédito ao anúncio de uma vitória. ‘Não se percebe nada’, diziam as pessoas”.

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